Opinião

Inconfidência

OPINIÃO | Angel Machado | 3 meses atrás em 10-01-2024

Ainda plantam flores em Moscovo? Sei que há pessoas que choram, mas, não é preciso ter esperança em tempo de guerra. Temos um pequeno poder, o de assumirmos as nossas posições diante dos outros. Não adquirimos certa habilidade para trocas de favores ou elogios. A vida privilegiada dos que dormem ou ignoraram o que anda a acontecer no mundo é um ultraje. Clamo por um rasgo mental de sanidade do leitor. 

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Eu tinha doze anos quando ouvi falar em Fiódor Dostoiévski, um filósofo, jornalista e escritor russo que viveu no século XVIII. O romance Crime e Castigo foi o primeiro livro que li, sem saber se podia. Todo o alfabetizado tem sede de leitura, e começar com a personagem “Raskólnikov”, que se imaginava um grande homem, com um livre arbítrio que lhe permitia afrontar as convenções da lei moral, que o fez sentir-se acima dos comuns mortais – um choque. 

Desde então, os clássicos da literatura universal passearam pelas minhas mãos curiosas. Eu sabia que a Arte era uma forma de existir, porque ela se sobrepõe aos desígnios do homem e, mesmo que haja contestações sobre o que é Arte, não vejo luz se não tivermos vida para além da aspereza capital.

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Todos os projetos e espetáculos que mudaram a minha perceção do mundo e das pessoas, foram como uma visão, alterou a minha perspetiva de horizonte, de paisagem e de Deus. 

Das Artes Plásticas em exposição, a Literatura em feiras ao ar livre, os artistas – videntes do futuro e das cidades -, do beco, da luz noturna, da valsa vienense, do “rei do jazz”, Louis Armstrong, dos clássicos que nunca saem de moda e das pessoas que vivem a história, envelhecem e não morrem. Isso é Arte que dá vida e esperança. 

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Sou piegas porque acredito na generosidade como uma das principais características de quem reivindica a Cultura, ela que transforma o que é obsoleto, em pulsão, ternura, luta, disciplina e combustão.

Quando se tem a Arte como ponto de partida, ou alimento experimental para um futuro longínquo, tem-se (quase) tudo. Da “Sagração da Primavera” de Igor Stravinsky a Piaf, “Hino ao Amor”; do filme japonês, “Casa Vazia de Kim Ki-duk”; do céu de janeiro à música que entra pelas janelas e atravessam o meu pensamento, cresce a minha sede, a dor e a febre de não sucumbir à desumanidade. 

Tudo o que existe entre a mulher e a terra, o homem e o espaço, e a curiosidade de uma criança, tudo pode ser um antídoto para os displicentes. A inconfidência é festejar a Arte e a sua transgressão. “Não há nada pior do que aquele que usurpa a arte sem deixar um pedaço da sua alma”, C. Tugren. 

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