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Coimbra

Historiadora Irene Pimentel publica história da oposição à ditadura

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A historiadora Irene Flunser Pimentel, autora da “História da Oposição à Ditadura 1926-1974” concluiu que, apesar da constante resistência ao regime, as várias oposições ficam marcadas por uma “cultura de derrota” que se prolongou durante décadas.

“Tratou-se de uma ‘cultura de derrota’, que foi acompanhada pelos erros aparentemente contrários do triunfalismo, do aventureirismo e da passagem voluntarista à ação”, escreve a historiadora (página 622) no livro “História da Oposição à Ditadura 1926-1974”, que vai ser lançado no final do mês.

De acordo com a autora do livro, a derrota da primeira tentativa de golpe do pós-guerra, em 1946/47, deveu-se ao facto de só uma coluna militar ter avançado de forma “voluntarista”, pensando que assim obrigaria outras unidades a acompanhá-la.

Nos casos das revoltas da Sé e de Beja (1959 e 1962 respetivamente) contribuíram de novo para o fracasso fatores como o isolamento político dos participantes, a falta de preparação e organização operacional, erros crassos de avaliação de forças, aventureirismo, deserções e desconfianças mútuas – políticas e pessoais -, nomeadamente as que ocorreram entre civis e militares que, segundo Irene Pimentel, foram incapazes de coordenarem esforços.

Para a historiadora e investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade de Lisboa, as exceções à “cultura da derrota”, além do golpe de Estado de 1974, contam-se algumas “ações espetaculares” de propaganda antirregime como a tomada do navio Santa Maria ou o desvio de um avião da TAP em 1961, bem como o assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, em 1967, e mais tarde as operações da Ação Revolucionária Armada (ARA), organização do PCP, e das Brigadas Revolucionárias (BR) dos anos 1970.

Quanto aos “aspetos negativos” entre as oposições, a historiadora destaca o “profundo sectarismo” que atingiu o PCP, sobretudo nos anos setenta, e os inúmeros grupos marxistas-leninistas.

“Quantas vezes as operações de grupos oposicionistas rivais foram silenciadas por outras formações políticas, nomeadamente as da LUAR e das BR, pelo PCP e outros grupos comunistas?” – questiona a historiadora no epílogo da obra sobre a oposição à ditadura.

Por outro lado, Irene Pimentel que aborda detalhadamente as várias oposições destaca a importância que Salazar deu aos comunistas portuguesas como força de oposição.

“Com a derrota do 18 de janeiro de 1934 (greves insurrecionais falhadas um pouco por todo o país), o PCP ficou quase sozinho no terreno da oposição ao Estado Novo, e a sua imagem foi reforçada pelo facto de Salazar o ter erigido em inimigo político principal”, refere a historiadora, sublinhando as sucessivas derrotas de estratégias como a greve geral, os atentados bombistas e o “ocaso” do anarco-sindicalismo e a neutralização dos republicanos e socialistas como forças efetivas de oposição.

Uma outra questão suscitada pelo extenso trabalho sobre as oposições prende-se com a longevidade da ditadura portuguesa.

“Por que razão terá o regime ditatorial durado os anos que durou sem que as diversas oposições, civis ou militares, o tivessem conseguido derrubar? Já anteriormente noutro livro, ao questionar se a longevidade do regime ditatorial ficara ou não a dever-se principalmente a ação da sua polícia política, respondi ambiguamente que sim e não”, escreve Irene Pimentel.

A investigadora acrescenta agora dois “grandes pilares” que ajudaram a manter o regime: a Igreja e as Forças Armadas.

“Se houve, certamente, espaços de dissidência e resistência em Portugal, a verdade é que a população, no seu conjunto, permaneceu apática e passiva, a ‘viver naturalmente’ e com ‘cada um no seu lugar’ e na sua função, como pretendia Salazar”, sublinha a historiadora.

“Este regime de caráter elitista conjugou a força e a autoridade com uma vertente paternalista, onde cabia algum desprezo relativamente ao que considerava ser a incapacidade dos portugueses em viverem por conta própria”, acrescenta.

Em suma, escreve Irene Pimentel, pode dizer-se que a durabilidade do regime se deveu, “no que toca à sua ação”, a uma combinação, entre outros, da capacidade de manter a coesão das Forças Armadas em seu redor e de promover a desmobilização de setores oposicionistas da sociedade civil.

“História da Oposição à Ditadura 1926-1974” de Irene Flunser Pimentel (774 páginas, editora Figueirinhas) incluiu fotografias, fichas biográficas e uma cronologia.

 

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