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Opinião

Há quem recuse o remédio mau da alternância

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Quem inventou a expressão “alternância democrática” sabia bem aonde queria chegar. De facto, expressões mais comuns dos nossos falares diriam fundamentalmente o mesmo, dispensando inventividades de publicitário – “mais do mesmo”, “tudo mudar para que tudo fique na mesma”, “ora agora bailas tu, ora agora bailo eu” ou, com menor urbanidade, a velhíssima “mudam-se as moscas…”. Mas não. Convenhamos que “alternância democrática”, mesmo sem ser jarrão, fica melhor nos discursos de naperon da “continuidade”.

O resultado da tal alternância tem tido seus resultados – intencionais, de resto – na degradação da democracia: há quem tenha desistido, de vez, da viagem à assembleia de voto; há quem use o seu voto para o inútil (em matéria de mudança) exercício de votar alternadamente “contra” nas escolhas (duas) afuniladas que a TV propõe à saciedade, seja por voz noticiosa seja pelas vozes de comentadores amarcelados; e há quem cale já a sua opção, não sendo “alternantófila”, enrolado por uma realidade social fascizante que ameaça de despedimento quem se assumir em oposição (a velha história de vergar negando o pão).

Mas há quem recuse o remédio mau da alternância, e levante a razão da alternativa, ou seja, a implantação de uma nova realidade que vá ao encontro da premissa “viver melhor”, aquela que o 25 de Abril plantou nas vidas dos comuns e que, por enquanto, nenhum alternante confessa querer matar – embora a vá matando. Alternativa, precisa-se! E foi em torno da alternativa que, no passado dia 6 de Junho, se desfilou no centro de Lisboa. Eu estive lá. No meio de muita gente – milhares! – caminhando avenida abaixo, o sol impiedoso, numa jornada de afirmação da tal alternativa que se vem propondo à inteligência dos descontentes, dos mobilizados, em nome de uma esperança de que precisamos para que haja vida. Milhares de cidadãos desaguando na Praça dos Restauradores, restauradores eles mesmos de um Portugal que se quer produtor e democrático, um País que recusa perder a soberania que lhe é herança. Jovens, velhos, trabalhadores, desempregados, pensionistas, milhares na marcha nacional promovida pela CDU, por um Portugal com futuro, “que – as palavras são de Jerónimo de Sousa – não aceitam ver o País ser conduzido para a ruína e para o declínio por aqueles que o entregaram, vergonhosamente, às mãos de um troika estrangeira, como o fizeram PS, PSD e CDS e o querem manter amarrado a interesses que não são os do nosso povo e do nosso País, prosseguindo a mesma política que o conduziu à crise e ao desastre”.

Os noticiários radiofónicos daquela noite não deram por nada. Os jornais do dia seguinte também não. O lápis azul do tempo do fascismo encontrou formas, digamos, mais sofisticadas de desenhar seus riscos, e o “exame prévio” mora já dentro das redacções. O silenciamento assume-se ferramenta de luta política, de isolamento dos cidadãos, e é também por isso que sair à rua em defesa da democracia é tão importante. Tão assustador para os inventores da alternância.

Os próximos dias vão ser os de vender a alternância como se fosse um produto de limpeza enganador, com promessas de lixívia e práticas políticas de sujidade entranhada. De um e do outro lado (que são, no essencial, para quem mexe nos cordéis da economia, um mesmo lado) pedem-se maiorias claras, para que mais enxuto seja o festim. Os antigos arautos do “pluralismo” são agora os paladinos da “estabilidade governativa”, isto é, da estabilização da precariedade laboral, da desvalorização do trabalho, da privatização dos serviços públicos, da eliminação do tecido produtivo, da fraude do empreendedorismo, da outra fraude do país exportador e turístico, da elitização da educação, da eliminação do SNS. Prometerão o quase céu, o mesmo que vem sendo prometido há 38 anos e nunca concretizado. O tempo não é de equívocos – trata-se de construir a Alternativa!

 manuel rocha

 

MANUEL ROCHA

Militante do PCP

Lider da bancada CDU na AMC de Coimbra

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