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Festas, visitas e 50 colmeias. O jardim mais improvável da Serra da Estrela

Susana Brás | 1 hora atrás em 18-02-2026

Há um sítio na Seia onde as abelhas dançam ao som de kizomba, vivem a quase mil metros de altitude e produzem um mel que já deu duas voltas ao mundo — pelo menos em quilómetros percorridos.

Chama-se Terras da Pulga e é aqui, no coração da Serra da Estrela, que Ricardo e Susana transformaram a apicultura num verdadeiro lifestyle de montanha.

Ricardo dedica-se às abelhas há mais de 30 anos. Começou aos 16, inspirado por um primo e movido por um desafio pessoal: criar uma abelha que não picasse. Hoje, com a mulher Susana, cuida de cerca de 400 colmeias espalhadas entre os 790 e os 1061 metros de altitude, na zona da Senhora do Desterro, em São Romão.

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O nome Terras da Pulga nasceu de uma quinta da avó que nunca conseguiram comprar — mas que decidiram eternizar na marca. “Quisemos manter o conceito de família e tornar isto ainda mais nosso”, explica Ricardo.

E é tudo menos um projeto pequeno. Só para produzir um frasco de um quilo de mel, as abelhas percorrem entre 80 mil a 120 mil quilómetros — o equivalente a duas ou três voltas ao planeta

As protagonistas desta história são as abelhas Buckfast, conhecidas na Europa pela sua docilidade. A escolha não foi por acaso: Susana sofreu um choque anafilático e desenvolveu uma alergia grave, o que levou o casal a apostar numa linhagem extremamente mansa. “Podemos estar com elas sem fato, sem problema”, garante Ricardo.

No jardim de casa têm 50 colmeias. Recebem visitas. Fazem festas. E as abelhas continuam “na vida delas”, focadas em trabalhar.

Na primavera, é possível ver uma verdadeira autoestrada aérea de abelhas a transportar pólen. E cada pequeno grão representa 1.600 voos individuais . Sim, leu bem.

O mel é multifloral — urze, rosmaninho e eucalipto — com um sabor profundo e adocicado, impossível de imitar.

Mas há mais: Pólen: vitamínico natural, recolhido voo a voo; Própolis: uma resina que funciona como verdadeiro “escudo da natureza”, usada tradicionalmente para reforçar a imunidade; Geleia real: o alimento exclusivo da rainha, responsável por uma longevidade que pode chegar aos cinco anos e por uma postura diária até 3.000 ovos;

É também cada vez mais utilizada na cosmética e como suplemento energético. Uma microcolher de manhã, debaixo da língua, é o ritual recomendado por quem vive rodeado de colmeias.

Nos apiários da Senhora do Desterro, em pleno Parque Natural da Serra da Estrela, é possível fazer apiturismo. Adultos e crianças podem vestir o fato (ou, no caso destas abelhas, até dispensá-lo), pegar num quadro, observar a rainha e provar mel diretamente da colmeia.

“Queremos que as pessoas tenham pelo menos uma vez na vida esta experiência”, diz Ricardo.

Se anda à procura de um programa diferente, talvez esteja na altura de trocar o brunch da cidade por uma manhã entre urzes e rosmaninho. E, quem sabe, descobrir que o verdadeiro luxo pode caber num simples frasco de mel.