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Exposição “Manifesto” vai reunir obras de Paula Rego que desafiaram a ditadura

Notícias de Coimbra com Lusa | 2 meses atrás em 03-02-2024

Uma exposição que evoca a primeira mostra individual de Paula Rego, há quase 60 anos, numa época de “repressão e violência política”, será inaugurada em abril, em Cascais, com 70 obras desafiadoras da ditadura e críticas do período pós-revolucionário.

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Intitulada “Manifesto”, com inauguração prevista para 18 de abril na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, a mostra retoma o nome da primeira exposição de Paula Rego em Lisboa, e reunirá pinturas simbólicas como “Salazar a vomitar a Pátria” (1960), abrangendo ainda a revolução do 25 de Abril, o período pós-revolucionário e o papel das mulheres na luta pela democracia e pelos seus direitos, segundo a curadora e historiadora de arte Catarina Alfaro, coordenadora da instituição.

“A partir desta exposição queremos trazer até hoje a memória da experiência desafiadora de Paula Rego”, disse a coordenadora da Casa das Histórias, também curadora da mostra, com Leonor Oliveira, em entrevista à agência Lusa, sublinhando que a exposição pretende reconstituir uma fase em que as obras da artista “comunicavam a experiência num regime ditatorial que considerava anacrónico e absurdo”.

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As 19 obras da exposição original “Manifesto”, realizada em 1965 na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, foram localizadas recentemente, durante uma investigação em curso para o catálogo ‘raisonné’ do trabalho de Paula Rego, entre as décadas de 1950 e 1960.

Nascida em Lisboa, Paula Rego (1935-2022) começou a desenhar ainda em criança e, com 17 anos, a conselho do pai, foi estudar para a Slade School of Fine Arts, em Londres, cidade onde viria a fixar residência e a distinguir-se pela singularidade da obra, inspirada na literatura e marcada, ao longo das décadas, pela defesa dos direitos das mulheres.

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A mostra original – reconstituída pela primeira vez – ocupará uma das oito salas da exposição total, que apresentará um aprofundamento crítico, através do olhar particular de Paula Rego, de temas marcantes da história recente de Portugal como a ditadura, o colonialismo e as guerras coloniais, o contexto pós-revolucionário e os direitos das mulheres.

“Alegoria Britânica” (1962-63) e “Tarde de Verão” (1961), ambas agora mostradas pela primeira vez ao público depois da exposição de 1965, e “Regicídio” (1965) serão algumas das obras expostas.

Além das pinturas e desenhos, também serão exibidos jornais da época e outra documentação para estabelecer uma cronologia com o que a artista estava a fazer durante as décadas de 1960 e de 1970.

“Neste período, a sua abordagem figurativa experimental, intuitiva e aparentemente caótica, servia a necessidade da artista de expressar as suas emoções, refletindo ansiedade, medo, angústia, sentimentos que eram partilhados por todos os portugueses que aspiravam a uma mudança política do país”, sublinhou a historiadora de arte à Lusa.

O ano de 1965, em que a exposição foi realizada, ficou marcado pela intensificação da repressão e violência da ditadura em Portugal.

O general Humberto Delgado foi assassinado, a violência da Guerra Colonial aumentou contra os movimentos de libertação, tendo estes sido reconhecidos pelas Nações Unidas, e a Sociedade Portuguesa de Escritores foi extinta pelo regime, com elementos do júri a serem detidos e as instalações destruídas pela Legião Portuguesa, depois de ter atribuído o seu prémio literário ao romance “Luuanda”, de Luandino Vieira, então preso no campo de concentração do Tarrafal.

Entre outros acontecimentos, 1965 foi também o ano de novas eleições para a Assembleia Nacional, reduzidas à escolha de deputados do partido único da ditadura.

“A exposição de Paula Rego criou, no final desse ano, um espaço de dissensão, confronto e liberdade. O seu experimentalismo plástico iludiu a censura e permitiu que as convenções artísticas, políticas e sociais pudessem ser postas em causa”, apontou a curadora.

Este conjunto de obras, bem como a documentação relacionada com a sua organização e receção crítica “evidenciam o impacto do trabalho de Paula Rego no panorama artístico português, que foi sentido com uma magnitude sísmica no território de estagnação vivido na época”, vincou Catarina Alfaro.

Mas o quadro cronológico da exposição não se ficará apenas pela ditadura, e irá prolongar-se pelo período pós-revolucionário, porque Paula Rego manteve um “olhar sempre atento e crítico em relação à situação política e social do país”.

Foi o caso da condição feminina, questão essencial da obra da pintora, e razão pela qual serão exibidas gravuras da série “Aborto”, de 1998, na qual denuncia a situação de muitas mulheres, “revoltada pelo resultado do primeiro referendo realizado em Portugal”, nesse mesmo ano.

Este processo viria a durar até 2007, quando o “sim” venceu apenas no segundo referendo para despenalizar a interrupção voluntária da gravidez: “Paula Rego viveu um forte sentimento de indignação perante a indiferença dos portugueses, traduzida em abstenção, no primeiro referendo, e retratou vividamente o sofrimento das mulheres que praticavam o aborto numa clandestinidade imposta pela proibição legal, num ambiente improvisado de domesticidade e solidão”, escreve a curadora.

A série de pinturas que apresentam cruamente esta realidade feminina “contribuiu decisivamente para a consciencialização da opinião pública sobre a necessidade de uma tomada de posição, que viria acontecer no referendo realizado em 2007 e que alterou a legislação portuguesa”, sublinha a curadora sobre o ativismo da artista cuja obra que está representada em muitas das mais importantes coleções públicas e privadas a nível mundial.

“Paula Rego conheceu muitas mulheres que praticaram aborto, ajudou algumas, soube de algumas que acabaram por morrer”, recordou Catarina Alfaro, acrescentando que a exposição irá integrar ainda uma série sobre a mutilação genital feminina, de 2009, e outras obras sobre o medo, a violência e a repressão sexual, temas que se relacionam com a intervenção cívica de Paula Rego pelos direitos das mulheres e contra a violência de género.

A pintora “tinha muitas expectativas, e ficou um pouco dececionada com o que veio depois do fim do regime de Salazar”, apontou Catarina Alfaro sobre a criadora que, em 2004, recebeu a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada de Portugal e em 2010 foi nomeada Dame Commander of The Order of the British Empire, pela Coroa Britânica, pela sua contribuição para as artes.

Para a curadora Leonor Oliveira, por seu lado, “a luta da artista pelos direitos das mulheres, sobretudo a sua defesa da despenalização do aborto através das séries dedicadas a este tema, mostra as possibilidades da intervenção dos artistas no campo político e o seu papel na consolidação democrática”.

“Confirma também a necessidade de definirmos um imaginário novo que mobilize e que permita também representar experiências diversas da realidade e os efeitos das decisões políticas em diversos grupos, contrariando assim uma perspetiva e narrativa únicas”, sublinhou, em resposta a perguntas da Lusa enviadas por ‘e-mail’.

A obra de Paula Rego “contraria ideias cristalizadas sobre a história, e abre a possibilidade da dúvida e da interpelação do poder e da autoridade”, acrescenta, sobre o impacto do ativismo da pintora.

“Salazar a Vomitar a Pátria” é uma das obras que “perturba a imagem do ditador, ainda hoje generalizada, de um homem humilde, honesto, sério e respeitável, revelando os efeitos do seu poder absoluto e repressivo”, considera Leonor Oliveira.

As suas pinturas “criticam também o colonialismo português e a guerra colonial, chamando a atenção para o seu impacto nos povos colonizados”, como a pintura “Quando tínhamos uma casa de campo dávamos festas maravilhosas e depois íamos para o mato matar pretos” (1961), exemplifica.

Em 2016, a artista viria a receber a medalha de honra da cidade de Lisboa e, em 2019, foi distinguida com a Medalha de Mérito Cultural, pelo Ministério da Cultura.

Para a exposição “Manifesto”, que ficará em Cascais até 6 de outubro – “resultado de um grande esforço de investigação” – virão obras do Reino Unido, de França, de museus e instituições nacionais como a Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação de Serralves, de colecionadores e de galerias como a 111, que representou a artista em Portugal.

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