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Estudo sobre recriações históricas editado em livro com apelo a novos modelos de gestão

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O investigador Roberto Carlos Reis lança terça-feira um livro que, analisando 120 recriações históricas portuguesas e especialmente focado na de Santa Maria da Feira, propõe “novos modelos de gestão” para um setor com “grande impacto social e económico”.

A publicação de 570 páginas do autor ligado a diferentes eventos de recriação do distrito de Aveiro baseia-se na tese de doutoramento que desenvolveu para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e apresenta uma nota introdutória em que o Presidente da República reconhece o “labor científico e académico” refletido no livro – cujo título é “As Recriações Históricas em Portugal – Viagem Medieval em Terra de Santa Maria”.

Numa nota introdutória, Marcelo Rebelo de Sousa elogia a obra pelo “rigor metodológico e contributo substancial num tema de patente relevância histórica” e enaltece também o autor pelo testemunho em que demonstra “paixão pelas raízes” do património retratado nesse tipo de evento.

A investigação em causa começou em 2015, mas, devido à covid-19, o lançamento do respetivo livro acabou por ser adiado de 2020 para 2021 e isso permitiu que o estudo passasse a reunir dados sobre as consequências do cancelamento da generalidade das recriações em Portugal.

“Houve muita gente que teve que mudar de vida porque o seu trabalho dependia destes eventos, o que se aplica tanto a empresas municipais ou privadas dedicadas apenas a recriações como a artistas especializados em performances medievais ou restaurantes e estabelecimentos cuja faturação dependia dessas datas”, realça Roberto Carlos Reis.

O investigador e docente nota também que os profissionais afetos à montagem dessas iniciativas “ainda são muito esquecidos, como acontece com os do setor da pirotecnia”, frequentemente prejudicados pela ausência de estruturas associativas “que possam defender os seus interesses com o devido cuidado”.

A principal conclusão de Roberto Carlos Reis é, por isso, que a generalidade das recriações históricas em Portugal “tem um impacto territorial enorme”, pelo que “os governantes já há muito deviam ter preparado outro tipo de políticas para os agentes culturais envolvidos”, acautelando aspetos como a sazonalidade do trabalho em causa, o seu nicho artístico, a dependência económica dos agentes especializados e o valor patrimonial das ações abrangidas.

O historiador sustenta essa opinião com base na revisão da literatura sobre as 120 recriações examinadas e também no ‘case-study’ da Viagem Medieval da Feira, que, apontada como a maior do país e uma das mais relevantes na Europa, registou uma assinalável evolução em mais de 20 edições anuais e justificou “uma análise específica” no estudo, com recurso a mais de 1.000 inquéritos pré e pós-pandemia a participantes de bastidores e linha da frente, residentes da zona onde o evento decorre e visitantes de dentro e fora do concelho.

Cruzando essa informação com a relativa a recriações como a Feira Medieval de Silves, o Mercado Medieval de Óbidos, os Dias Medievais de Castro Marim, a Festa da História de Bragança e a Feira Afonsina de Guimarães, Roberto Carlos Reis declara à Lusa: “As recriações históricas tornaram-se um produto turístico específico e representam também uma área económica própria, por envolverem serviços técnicos, artistas, artesãos e outros intervenientes especializados”.

A gestão desses eventos cabe na generalidade às autarquias e ao tecido associativo local, mas o autor do novo livro recomenda um novo modelo que, podendo abranger “a criação de parques temáticos ao ar livre” para subsistência regular da comunidade envolvida e atração de públicos menos massivos, permita igualmente “mais rigor histórico ao nível de guarda-roupa e gastronomia”, por um lado, e maior consciência social e ambiental, por outro.

Esses “desafios para o futuro” resultam da crescente constatação de que, apesar da predominância de aspetos positivos na afirmação económica das recriações históricas um pouco por todo o país, o crescimento dessa atividade também gera desvantagens.

Nessa componente negativa, Roberto Carlos Reis destaca três exemplos: o congestionamento do trânsito nas zonas de implementação dos eventos, com prejuízo especial para a tranquilidade e qualidade de vida dos moradores; o abuso do consumo de álcool e respetivas consequências ao nível da ordem pública; e “a exploração dos supostos ‘voluntários’, como expediente para as organizações recorrerem a mão-de-obra barata”.

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