Universidade
Estudo internacional apresenta guia prático sobre como a IA pode reforçar a proteção dos oceanos
Um estudo internacional que conta com a participação de Catarina Silva, investigadora do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), apresenta, pela primeira vez, um guia prático para garantir que a utilização da inteligência artificial (IA) em ecossistemas marinhos seja transparente, segura e cientificamente válida.
A investigação, coordenada pelo centro AZTI – Marine and Food Research e publicada na revista científica Fish and Fisheries, defende que a IA deve funcionar como um complemento ao julgamento humano, reforçando a capacidade de tomar decisões informadas sobre o oceano, e não como um substituto.
Num contexto em que a adoção de tecnologias baseadas em IA cresce rapidamente no setor marinho — desde câmaras instaladas em embarcações de pesca a modelos preditivos da saúde dos oceanos — os investigadores alertam para a ausência de um enquadramento global consistente que garanta a fiabilidade destas ferramentas.
O estudo propõe um enquadramento assente em três pilares fundamentais para assegurar uma IA marinha ética, robusta e digna de confiança. O primeiro pilar diz respeito à viabilidade socioeconómica e legal, defendendo soluções acessíveis a todo o setor, alinhadas com a regulamentação europeia e desenvolvidas com a participação ativa das partes interessadas.
O segundo pilar centra-se na governação ética dos dados, recomendando a adoção dos princípios FAIR, CARE e TRUST, com o objetivo de garantir a qualidade, a rastreabilidade, o respeito pelas comunidades envolvidas e a preservação dos dados a longo prazo.
“A utilização de IA para apoiar decisões que afetam ecossistemas marinhos e meios de subsistência exige acessibilidade, transparência e validação rigorosa”, sublinha Catarina Silva, coautora do estudo. “Este enquadramento fornece orientações práticas para reforçar a evidência científica e a confiança em todo o setor marinho”.
O terceiro pilar incide sobre a robustez técnica e a validação científica dos modelos de IA, defendendo que estes devem ser testados em condições reais, com dados independentes e comparações com medições no terreno, de forma a garantir resultados fiáveis e úteis para a gestão.
Os autores alertam ainda para riscos associados ao uso inadequado da IA, como enviesamentos nos dados, falta de validação ou ausência de transparência, fatores que podem comprometer decisões com impacto nos ecossistemas, nas comunidades piscatórias e nas políticas públicas.
Segundo os investigadores, o enquadramento proposto traz benefícios claros para a investigação científica, a gestão das pescas e a sociedade em geral, ao apoiar a sustentabilidade dos oceanos, o combate à pesca ilegal e o desenvolvimento de uma economia azul responsável. Em Portugal, o guia poderá contribuir para a digitalização do setor marítimo, alinhando a inovação nacional com padrões internacionais de “IA de Confiança”.
“Regular a inteligência artificial será um dos grandes desafios de governação do nosso tempo”, afirma Julian Lilkendey, autor sénior do estudo e investigador do Leibniz Centre for Tropical Marine Research, na Alemanha. “No oceano, onde dados e decisões moldam ecossistemas e sociedades, a IA deve servir como ponte entre o julgamento humano e a precisão das máquinas”.