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Estudo indica que perceção da ameaça reflete situação epidemiológica mas há exceções

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O nível de ameaça pandémica percecionada pelos cidadãos tende a refletir a situação epidemiológica, mas foram também identificados períodos em que isso não ocorreu, concluiu um estudo divulgado hoje pela Universidade Católica Portuguesa (UCP).

A investigação, coordenada por Rui Gaspar, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UCP, incidiu em mais de 120 mil comentários públicos nas redes sociais de instituições e órgãos de comunicação social “de referência” e mostrou que existiram mais “picos” de perceção da gravidade da situação pandémica do que momentos de confinamento geral.

“Por um lado, evidencia que temos uma sociedade resiliente, uma vez que, após cada período em que o grau de ameaça era percecionado como muito elevado, havia um período de ‘restauração’. Por outro, se repetirmos muitas vezes este ciclo, a exaustão vai ser maior”, explicou Rui Gaspar à agência Lusa.

Desta forma, conseguiu-se recuperar “relativamente bem depois do primeiro desconfinamento”, mas este ano a recuperação será “diferente e mais complicada, até ao nível da saúde mental”, frisou o investigador.

“Isto serve para as autoridades de saúde e em geral perceberem que não podemos aplicar sempre as mesmas medidas e achar que vão ter sempre resultado, porque as pessoas já não são as mesmas na forma de lidar com o assunto. Tem de haver uma customização àquele momento”, apontou Rui Gaspar.

Nesse sentido, “quando se desconfina, é prciso recolher dados ao nível destas perceções” e da forma como as pessoas se estão a comportar para perceber que “a comunicação deve ser adaptada”.

“Se a seguir a um desconfinamento as pessoas estão a percecionar um risco baixo, é necessário manter a perceção no nível moderado a alto, para não voltarem a ter comportamentos de risco, estabelecer um perfil para perceber as estratégias mais indicadas e ajudá-las a manter o comportamento indicado”, concretizou.

A título de exemplo, Rui Gaspar explicou que em Portugal houve “dois grandes confinamentos nacionais”, mas “em termos percetivos foram mais do que dois” os momentos de “crise e restauração”.

“A primeira ‘crise’ ocorreu logo no primeiro confinamento, depois voltou a ocorrer num momento em que a maioria dos casos se concentravam em Lisboa, em julho, e isto não coincide com um confinamento, mas houve uma perceção de que as coisas estavam a piorar”, exemplificou o Professor.

“Também em setembro, na altura da reabertura das escolas, o discurso passava mais por uma perceção negativa”, prosseguiu, até chegar ao momento em que se verificaram “vários picos simultâneos”, entre meados de novembro e início de dezembro, numa altura em que se ultrapassou a “barreira psicológica” dos mil novos casos de covid-19 por dia.

“Hoje não parece muito, mas foi um dos maiores picos porque as pessoas tiveram uma perceção de que as coisas iriam piorar muito. E este foi precisamente o período em que podemos considerar que a fadiga pandémica foi mais elevada, porque houve muitos picos em que houve elevação do grau de ameaça percecionado, recuperação, elevação”, justificou.

A fadiga pandémica foi mesmo maior “antes do Natal” do que em janeiro, durante a ‘explosão’ do número de novos casos em Portugal, porque no início deste ano “estávamos mais atentos”, uma vez que “a situação era verdadeiramente grave” e, portanto, “mesmo cansados conseguíamos estar atentos”.

Da mesma forma, os períodos em que a perceção da gravidade foi mais baixa também nem sempre coincidiram com momentos de menor risco pandémico.

Se um dos “três momentos” de baixa perceção de gravidade identificados pela investigação coincidiu com o único dia sem qualquer morte por covid-19, em 03 de agosto, desde que foi registada a primeira, os outros dois aconteceram precisamente no dia em que foram confirmados os primeiros casos da doença no país e no período de Natal.

A “sensação de controlo da situação” pelas autoridades, ao serem confirmados os primeiros casos, após um período de “perceção muito grande de que o vírus iria entrar no país”, com uma “grande ansiedade associada”, ajuda a explicar a “diminuição da ansiedade” no dia em que o vírus SARS-CoV-2 foi confirmado em Portugal.

Já o período de descompressão coincidente com o Natal poderá ser explicado, precisamente, pela conjugação do período de maior fadiga pandémica com outros fatores.

“Pode ser por as pessoas sentirem-se bem e seguras em família. Também houve a combinação do efeito de fadiga e a divulgação da notícia de que iria ser iniciada a vacinação. Tudo isto, em conjunto, levou a uma sensação de segurança que pode ter levado ao chamado efeito de Natal”, concluiu Rui Gaspar.

O estudo hoje divulgado foi coordenado pelo docente e investigador do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UCP, em pareceria com a Direção-Geral da Saúde, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), Ordem dos Psicólogos Portugueses e Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge.

Foram analisados 120.267 cometários públicos de utilizadores de redes sociais em resposta a publicações sobre a covid-19 feitas pela Direção-Geral da Saúde e por sete “órgãos de comunicação social de referência”: Expresso, TVI24, RTP3, SIC Notícias, Correio da Manhã, Público e Observador.

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 2.570.291 mortos no mundo, resultantes de mais de 115,5 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Em Portugal, morreram 16.486 pessoas dos 808.405 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

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