A utilização de antibióticos na Medicina Dentária continua a ser fundamental no tratamento de infeções bacterianas, mas o seu impacto no equilíbrio da microbiota oral e intestinal está a ganhar crescente atenção por parte dos profissionais de saúde.
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No âmbito do Dia Mundial da Saúde Oral, a especialista em medicina dentária Ana Margarida Vieira alerta para a prescrição e utilização inadequada ou excessiva de antibióticos e a disbiose associada à antibioterapia (DAA), um desequilíbrio microbiano que pode ter consequências clínicas relevantes e ainda pouco reconhecidas pela população.
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Os antibióticos desempenham um papel essencial em situações clínicas bem definidas, mas não atuam exclusivamente sobre as bactérias responsáveis pela infeção. Atuam também sobre as comunidades de bactérias benéficas que habitam o nosso organismo e que contribuem para o seu correto funcionamento. Ao alterarem o ecossistema microbiano do organismo, os antibióticos podem comprometer o equilíbrio da microbiota oral e intestinal, afetando mecanismos importantes de proteção e regulação inflamatória.
De acordo com a médica dentista, “esta alteração pode traduzir-se em manifestações relativamente frequentes na prática clínica, como candidíase oral, sintomas gastrointestinais associados à disbiose pós-antibioterapia ou maior dificuldade na recuperação do equilíbrio oral após infeções, sobretudo em doentes com predisposição inflamatória”. Paralelamente, a utilização repetida ou inadequada destes fármacos contribui para o aumento da resistência antimicrobiana.
A especialista sublinha ainda que “na maioria das infeções dentárias, o tratamento da causa continua a ser o elemento central da abordagem terapêutica, devendo o antibiótico funcionar apenas como complemento quando existe indicação clínica clara”. Ainda assim, admite que “persiste alguma prescrição excessiva em medicina dentária, sobretudo quando os antibióticos são utilizados como resposta automática à dor ou inflamação sem infeção bacteriana confirmada”.
A proteção da microbiota começa a assumir-se como um elemento complementar na gestão responsável da antibioterapia. Mas, apesar do aumento da evidência científica sobre a disbiose associada a antibióticos, a sua integração na prática clínica diária ainda enfrenta vários desafios, particularmente na medicina dentária. Segundo a especialista, os profissionais de saúde têm atualmente acesso à informação e a formação, mas os efeitos da alteração da microbiota nem sempre são valorizados no dia a dia, sobretudo porque podem surgir a médio ou longo prazo e não são imediatamente atribuídos ao tratamento antibiótico.
Para a especialista, uma utilização mais criteriosa dos antibióticos por parte dos profissionais de medicina dentária implica um diagnóstico rigoroso, a distinção entre inflamação e infeção e uma seleção adequada do fármaco a utilizar, da dose e da duração do tratamento. Acrescenta ainda que “esta abordagem permite não só melhorar os resultados clínicos obtidos, como também reduzir os efeitos adversos e proteger a eficácia futura dos antibióticos”.
Contudo, continuam a existir situações em que a antibioterapia é necessária e, nesses casos, a especialista defende que “existem estratégias que podem ajudar a minimizar o impacto na microbiota”. Entre elas, destaca a “toma de um probiótico adequado, idealmente um que seja indicado pelas guidelines das organizações de saúde, como medida complementar, idealmente iniciada durante o tratamento com antibiótico e mantida após o seu término”. Diversos estudos clínicos demonstram benefícios na redução de efeitos adversos gastrointestinais e numa recuperação mais rápida do equilíbrio microbiano, particularmente em doentes mais suscetíveis ou sujeitos a tratamentos prolongados e utilização de antibióticos de largo espectro.
A crescente investigação científica reforça também a ligação entre a saúde oral e a saúde geral dos indivíduos, não devendo a primeira ser encarada como algo isolado, mas sim como uma parte do todo. Para Ana Margarida Vieira, uma abordagem integrada da saúde oral e intestinal reflete uma visão mais abrangente e preventiva da prática clínica. “Cada vez mais sabemos que as alterações no equilíbrio da microbiota oral podem ter repercussões sistémicas, o que influencia processos inflamatórios e está associado a diversas condições de saúde”.
Assinalado anualmente a 20 de março, o Dia Mundial da Saúde Oral pretende reforçar a importância da prevenção e da literacia em saúde oral. A reflexão sobre o impacto dos antibióticos no microbioma destaca a necessidade de decisões terapêuticas mais conscientes, capazes de equilibrar a necessidade de conseguir controlar eficazmente a infeção com a preservação do equilíbrio biológico do organismo humano.
OPINIÃO | Ana Margarida Vieira, especialista em medicina dentária
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