Coimbra

Escadas do Quinchorro, onde cada degrau é um olhar sobre o rio Mondego em Coimbra

Angel Machado | 2 horas atrás em 29-08-2025

As Escadas do Quinchorro guardam em si um paradoxo curioso: são, ao mesmo tempo, um percurso utilitário e uma herança histórica envolta em mistério. O seu posicionamento, demasiado estratégico, sugere que terá cumprido outrora uma função defensiva e logística. Hoje, porém, a sua missão é mais prosaica: encurtar o caminho entre a parte média alta e a média baixa da cidade, poupando tempo e esforço a quem as percorre.

Ainda assim, a imaginação não resiste a projetar nelas a sombra da antiga Couraça (porta para) que ligava — e defendia — a Alta ao Mondego. O próprio nome “quinchorro” poderá derivar de “quinchouso”, evocando a ideia de um espaço cercado.

Mas é na experiência física que as Escadas do Quinchorro se revelam em pleno. A sua inclinação, somada aos 114 degraus, propõe ao caminhante uma travessia quase metafórica. Subi-las é viver uma sensação próxima das construções paradoxais de Escher: a perceção vacila, a lógica dissolve-se, e cada passo parece conduzir a um destino que nunca se alcança. O esforço repete-se, degrau após degrau, como se o corpo estivesse preso num ciclo infinito.

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Notícias de Coimbra andou pelas escadas do Quinchorro, passados dois séculos da sua construção. A perspetiva de uma vista fabulosa ao subi-la é de esquecer os 114 degraus que tem pela frente, mas sem descartar uma outra possibilidade, de passar dez minutos a observar o percurso, sem grande entusiasmo. O abandono é visto logo na placa, na entrada pela Couraça de Lisboa, que possivelmente se refere ao património, e que não se vê nenhuma informação, e pelo caminho pichações no muro que revelam a incoerência de uma “suposta” preservação.

Ao final, o encantamento de uma vista privilegiada: as margens direita e esquerda do Mondego, o próprio rio, a ponte Santa Clara, o Convento São Francisco, o Mosteiro Santa-Clara-a-Nova e Santa-Clara-a-Velha, e muitas fotografias para ilustrar tal experiência, mas a noite a paisagem escurece, a falta de iluminação nas escadas é um risco: o de cair e a insegurança.

Estas escadas transformam-se assim em metáfora de permanência e de trânsito, de história e de ilusão – um atalho urbano. Entre o peso da pedra e o cansaço das pernas, o Quinchorro oferece uma ligação entre dois pontos da cidade: a Couraça de Lisboa e a Rua da Alegria, e também um convite silencioso à contemplação. No fim de contas, cada degrau é uma recordação de que as cidades não se percorrem apenas com os pés — percorrem-se, sobretudo, com o olhar e com a memória.

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