Região

Entre cinzas e memória, “Mourísia fica para a história”

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 3 minutos atrás em 17-03-2026

Sete dias depois da visita presidencial, a aldeia de Mourísia, no concelho de Arganil, volta ao silêncio — mas as marcas do incêndio de agosto de 2025 continuam bem visíveis.

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A paisagem contrasta entre o verde que sobrevive junto às casas e o cinzento dominante das encostas despidas, onde o fogo consumiu árvores, campos e memórias.

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Esta foi a primeira aldeia a ficar completamente isolada durante o incêndio que teve origem na zona do Piódão. Apesar da presença de água na região, incluindo fontes tradicionais ainda utilizadas pela população, “com certeza esta água era pouca para fazer face aos incêndios”.

As fontes continuam a ser um elemento característico da aldeia, servindo quem trabalha nos campos e procura algum alívio nos dias mais quentes.

No mesmo local onde agora reina a calma, junto à capela da aldeia, concentraram-se dezenas de pessoas há uma semana. Vindos de vários pontos do concelho, juntaram-se para receber o Presidente da República, que cumpriu a promessa de visitar Mourísia após os incêndios.

Nessa altura, uma bandeira de Portugal foi colocada junto a uma placa ainda carbonizada — símbolo de resistência que levou António José Seguro a escrever: “Nunca vos esquecerei.” Hoje, a bandeira já não está. O que permanece são os sinais do fogo e o regresso ao isolamento.

Silvéria dos Anjos, uma das poucas residentes permanentes, disse ao NDC: “Para mim nunca houve um tão grave como foi este.” E as perdas foram totais: “Os campos, as árvores, as videiras. Ardeu tudo.”

Silvéria vive sozinha há quase uma década. Ainda assim, mantém-se na aldeia que viu mudar drasticamente.

A passagem do Presidente foi, para muitos, um momento marcante. “Acho que foi um privilégio ele vir aqui”, afirma.

Para a população, a visita teve um significado claro: mostrar que Mourísia não foi esquecida, apesar do isolamento e da dimensão reduzida.

Questionada sobre o que mais a marca — a visita ou o incêndio — Silvéria responde com simplicidade: “Tudo faz parte da vida.”

Hoje, a aldeia volta a ter poucos rostos e muitas casas fechadas. A azáfama de há uma semana deu lugar ao quotidiano silencioso de sempre.

Mourísia foi, por dias, o centro das atenções. Agora, regressa à sua realidade — envelhecida, despovoada, mas resistente.

Como resume a própria Silvéria: “Mourísia fica na história.”

E talvez seja essa a maior ambição destas pequenas aldeias do interior: não desaparecer — nem da paisagem, nem da memória coletiva.

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