O piloto João Ferreira (Toyota Hilux), que vai tentar lutar pela vitória no rali Dakar de todo-o-terreno, admite que a profissão o obrigou a colocar os estudos de lado, mas “gostava de acabar” o curso de eletromecânica.
Em entrevista à agência Lusa, o piloto de 26 anos revela estar “100 por cento dedicado” à carreira no desporto automóvel, depois de ter assinado contrato com a Toyota Gazoo Racing, da África do Sul, uma das favoritas à vitória na prova, mas que ser piloto profissional “não era um objetivo”.
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“Os meus pais deram-me a possibilidade de correr nos karts desde 2009/2010 até 2017/2018, mas sempre ficou claro que a escola e depois a universidade eram a prioridade. A ideia era essa: estudo primeiro. Só mais tarde, já no todo-o-terreno, quando os resultados começaram a aparecer e percebemos que eu conseguia estar perto dos melhores, é que falei com os meus pais e propus dedicar-me mais”, contou.
Os progenitores viram a dedicação e acederam.
“Abdiquei de muitas coisas, vida social, festas, para me focar. E deixaram-me seguir. Não era um sonho inicial, foi algo que se foi construindo com o tempo, sobretudo no todo-o-terreno. Hoje, ser piloto oficial de uma marca como a Toyota deixa-me muito orgulhoso”, sublinha João Ferreira.
O piloto leiriense chegou a entrar para o curso de Engenharia Eletromecânica na Universidade de Coimbra, mas entretanto interrompeu os estudos.
“Quero terminar o curso um dia, mas ainda me faltam muitas cadeiras. Para já está em ‘stand-by’, mas no futuro gostava de acabar”, revela.
Agora, luta taco a taco com grandes nomes da modalidade, como Carlos Sainz ou Sébastien Loeb.
“No início sentia-me intimidado, porque cresci a jogar na PlayStation com o nome deles. Depois, passar anos e estar ao pé deles, vê-los saberem o meu nome e estar a discutir etapas com eles, é estranho — e muito especial”, frisa.
Apesar dos 63 anos, das quatro vitórias no Dakar e os dois campeonatos mundiais de rali conquistados, o piloto madrileno é uma referência.
“Sobretudo com o Carlos [Sainz], tenho uma relação muito boa. Fomos colegas de equipa numa corrida em 2024, quando ele correu de Mini, e ficou uma excelente relação. Damo-nos muito bem e ele, como piloto e como pessoa, merece o respeito que tem”, sustenta o leiriense.
Apesar de reconhecer o valor dos adversários, João Ferreira sublinha que o seu objetivo é mesmo tentar a vitória, apesar de competir contra pilotos como Carlos Sainz, Sébastien Loeb, Nasser Al-Attiyah ou Yazeed al Rajhi.
“São muito acessíveis. Cada um tem a sua personalidade, mas são muito mais ‘normais’ do que as pessoas pensam. Às vezes parecem intocáveis, mas são pessoas perfeitamente normais”, sublinha.
Por isso, o principal problema que encontra neste tipo de provas é o cansaço mental, sobretudo com as grandes ligações entre etapas.
“Não há preparação para isso. Temos de ter a mentalidade de que vamos para aquilo. Aquilo não é para ser agradável: é para ser difícil. Somos profissionais e estamos lá para fazer o trabalho. Se a etapa corre bem e depois temos uma ligação de 300 ou 400 km, a viagem vai mais ‘leve’. Se corre mal, ter a ligação a seguir é duro, mas é o Dakar. É o ‘mindset’: estar focado no objetivo final e, dia a dia, é uma luta connosco próprios”, explica.
A duração é outro desafio.
“O terreno é muito duro e são duas semanas a conduzir. É muito longo. Chegamos ao dia de descanso e, quando pensamos que vamos relaxar, percebemos que falta mais uma semana e tudo recomeça. As ligações são enormes: 500 ou 600 km por dia, além da etapa cronometrada. Há condições atmosféricas, físicas, a adrenalina, a relação com o navegador, dias menos bons. Os mecânicos também são humanos. É impossível fazer um Dakar perfeito sem falhas. E estamos longe da família e dos amigos. Tudo isso torna o Dakar especial — e é por isso que todos querem estar lá e sonham ganhar. E esse é o meu objetivo: ganhar”, conclui.
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