No concelho de Penela, distrito de Coimbra, a falta de eletricidade obrigou residentes a regressar ao “antigamente” e usar velas, mas há ainda zonas sem energia e o concelho registou um novo pedido de realojamento.
Na povoação da Cumeeira, Rosalina Carvalho tem luz desta sexta-feira, ao final do dia, mas ainda mantinha hoje o seu café de portas fechadas, apesar de ao sábado ser dia de fecho.
“Estou a pensar [abrir] amanhã. Não sei se isto se irá manter assim…”, disse à Lusa, admitindo “prejuízos” e que tem vivido com “dificuldades”.
Nos últimos dias tem sido com geradores que Rosalina tem estado “a alimentar as arcas, para ver se não ia tudo pela borda abaixo”.
Face às previsões meteorológicas para os próximos dias, confessou “ter muito medo”, salientando que são “muitas máquinas” que estão ligadas.
Do outro lado da rua vive a cunhada Alice Palaio, que sem água e sem luz, tem vivido “como antigamente: à luz da vela”, descreveu, rindo.
Foi também com “três, quatro velas” que Maria Auzinda Freire colmatou a falta de energia elétrica. Já para cozinhar, usou “água das beiras” durante dois dias.
Por causa da falha na energia elétrica desde quarta-feira, Maria Auzinda disse ter-se estragado “muita coisa”, mas isso não foi o pior.
“Só o susto chegou”, afirmou, referindo-se à noite da passagem da tempestade Kristin.
Já no centro de Penela, e por causa da falta de eletricidade, Iris Taylor e o marido, um casal de ingleses a viver desde 2006 no concelho, pernoitaram nas Residências das Indústrias Criativas.
O local foi disponibilizado pela Câmara Municipal de Penela, tendo acolhido quatro pessoas na noite de sexta-feira.
À Lusa, o casal contou que ainda usou um gerador do vizinho, mas este não tinha capacidade suficiente para as duas casas.
Iris, de 93 anos, e com problemas de saúde, não escondeu o desejo de regressar a casa o mais depressa possível.
“Tenho o meu cão”, justificou, brincando que, quando chegar a casa, o cão lhe irá perguntar ‘onde é que estiveste? Deixaste-me’.
Segundo Anabela Ventura, do Gabinete de Ação Social da Câmara Municipal, têm havido o cuidado de verificar se as pessoas têm condições para poder estar nas suas habitações, uma vez que ainda há zonas sem luz e sem água, mas há quem ainda resista.
“Aquilo que sentimos é que algumas pessoas até poderiam beneficiar no realojamento, quanto mais não fosse durante a noite, mas ainda assim oferecem alguma resistência, porque custa-lhes sair das suas casas. Outras recorrem a amigos, a familiares e tem havido também um trabalho muito grande da comunidade em se ajudar mutuamente”, rematou.
De acordo com o presidente da Câmara de Penela, Eduardo Nogueira dos Santos, houve hoje um novo pedido de realojamento, confirmando à Lusa que há ainda várias zonas do concelho sem energia elétrica.
A passagem da depressão Kristin por Portugal continental, na quarta-feira, deixou um rasto de destruição, causando pelo menos cinco mortos, segundo a Proteção Civil, vários feridos e desalojados. A Câmara da Marinha Grande contabiliza ainda uma outra vítima mortal no concelho. No concelho da Batalha, distrito de Leiria, um outro homem de 73 anos morreu este sábado ao cair de um telhado quando estava a reparar as telhas.
Quedas de árvores e de estruturas, corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações foram as principais consequências materiais do temporal.
Leiria, por onde a depressão entrou no território, Coimbra e Santarém são os distritos que registam mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade entre as 00:00 de quarta-feira até às 23:59 de dia 01 de fevereiro para cerca de 60 municípios, número que pode aumentar.