Opinião

É fundamental abordar o impacto dos tratamentos de fertilidade na intimidade do casal 

OPINIAO | 14 minutos atrás em 10-02-2026

A infertilidade é um desafio no ciclo de vida de um casal, com impacto a vários níveis. Pode afetar a relação, a intimidade e a forma como o casal vive a sexualidade, alerta a psicóloga Filipa Santos. 

Num contexto dominado por consultas, exames, calendários ovulatórios e expectativas de resultados, o sexo pode deixar de ser um lugar de encontro para se transformar numa tarefa a cumprir, e onde o desejo, pode ficar perdido. “Ao longo dos tratamentos de fertilidade, é comum que a intimidade seja contaminada pela pressão do resultado. Quando o sexo fica excessivamente associado a um objetivo, como o de engravidar, perde-se a espontaneidade e por vezes instala-se a ansiedade”, explica a Dra. Filipa Santos, psicóloga do IVI Lisboa, que acompanha casais em tratamento.

Os números científicos confirmam esta realidade emocional: entre 25% e 40% dos casais com infertilidade apresentam níveis elevados de ansiedade e sintomas depressivos, fatores que interferem diretamente com a libido e a qualidade da relação. O stresse acumulado, o medo do fracasso, a culpa e a sensação de perda de controlo sobre o próprio corpo contribuem para um afastamento progressivo, muitas vezes vivido em silêncio, sem que nenhum dos dois saiba como diminuir o distanciamento.

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Do ponto de vista psicológico, este impacto é compreensível. O corpo passa a ser alvo de intervenções clínicas constantes, a privacidade é reduzida ao mínimo e a sexualidade fica condicionada por orientações médicas e por janelas de oportunidade reprodutiva. É importante que a relação não fique “em pausa” até que o objetivo da gravidez seja alcançado porque isso pode fragilizar, de forma duradoura, o vínculo emocional do casal.

“Cuidar da conjugalidade como um todo, seja na sua vertente mais sexual ou dos afetos é uma forma de preservar a identidade do casal”, sublinha Filipa Santos. “A intimidade, o desejo e a espontaneidade não devem ser vistos como incompatíveis com os tratamentos. Pelo contrário, fazem parte do equilíbrio emocional necessário para enfrentar esta fase tão exigente”.

A vivência da sexualidade durante os tratamentos varia significativamente de casal para casal. Para alguns, o sexo torna-se mecânico, esvaziado de prazer e conexão; para outros, surge o evitamento ou uma desconexão emocional progressiva. Não existe uma resposta única nem uma forma “certa de viver este período, mas há estratégias que ajudam a proteger a relação e a devolver-lhe proximidade, cumplicidade e leveza.

DICAS PARA CUIDAR DA RELAÇÃO DURANTE OS TRATAMENTOS

Separar sexo de procriação, sempre que possível: Promover momentos de intimidade que não estejam ligados aos dias férteis ou às indicações médicas ajuda a devolver espontaneidade e prazer à vida sexual do casal.

Reintroduzir a sedução no dia a dia: A sedução não começa no quarto. Um olhar cúmplice, uma mensagem inesperada, um gesto de carinho, de atenção para o outro ajudam a reativar o desejo e a cumplicidade entre os dois.

Redefinir intimidade para além do ato sexual: Toque, carinho, abraços prolongados e proximidade emocional são fundamentais para manter o vínculo quando o desejo sexual oscila ou se retrai.

Falar abertamente sobre expectativas, medos e frustrações: O diálogo honesto reduz a pressão interna e evita interpretações erradas, ressentimentos ou afastamento emocional silencioso.

Procurar apoio psicológico especializado: O acompanhamento psicológico ajuda o casal a gerir o impacto emocional da infertilidade, a comunicar melhor e a proteger a relação ao longo de todo o processo.

Numa altura do ano em que se celebra o Dia dos Namorados e a ligação entre casais, Filipa Santos deixa uma mensagem importante: a relação não deve ficar refém de um resultado clínico. A vida emocional e sexual do casal merece cuidado, atenção e investimento sempre. “Cuidar da relação é também cuidar do caminho que o casal está a fazer. E esse caminho merece ser vivido com proximidade, cumplicidade e, sempre que possível, prazer”, conclui a psicóloga.

OPINIÃO | Filipa Santos, psicóloga no  IVI Lisboa