Na pequena aldeia do Sardal, no concelho de Arganil, o tempo parece ter parado — mas as feridas dos incêndios de 2025 continuam bem vivas.
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Casas vazias, ruas silenciosas e apenas três residentes permanentes. Entre eles, Eduardo Pinto, quase 80 anos, que muitos já chamam de “guardião” da aldeia… ainda que ele rejeite o título.
“Guardião? Não sou guardião de coisa nenhuma… mas muitas vezes estou aqui literalmente sozinho.”
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O cenário é desolador. Habitações fechadas a maior parte do ano, abertas apenas em agosto, quando antigos moradores regressam de Lisboa para matar saudades. Mas quando o verão acaba, fica o vazio — e o silêncio.
“Estou a lidar muito mal com a solidão… dizem que isto é bom para descansar, mas isso é para quem vem de férias. Quem está aqui o ano todo… faz muito barulho o silêncio.”
No verão passado, o Sardal esteve cercado pelas chamas. O medo voltou — e desta vez mais intenso.
“Era uma coisa assustadora… mandámos tirar as crianças daqui. Felizmente havia muita gente e conseguimos salvar as casas.”
Nem todas. Três habitações arderam. E Eduardo não esconde a revolta.
“Três casas que podiam ter sido salvas… e eu vi dois carros de bombeiros sem fazer nada!”
A crítica é dura — e direta. “A Proteção Civil não protege nada. Não vejo ninguém a combater incêndios. Isto está tudo mal orientado.”
Segundo Eduardo, o problema está na falta de conhecimento do terreno e na burocracia.
“Eu não posso estar aqui e ver bombeiros de longe… isto não é carne para grelhar! Quem conhece a terra é que devia estar à frente.”
Recorda, emocionado, uma casa de família que acabou destruída. “Eu salvei aquela casa em 2017 com as minhas mãos… desta vez deixaram-na arder.”
Mas o fogo não é o único problema. O abandono é constante — e dói.
Sem rede, sem internet, sem serviços básicos, viver ali é um desafio diário. “Não há telefone, não há net… quem é que vem para aqui trabalhar assim?”
E o mais duro não é a falta de infraestruturas — é a ausência de atenção.
“Tenho quase 80 anos… e nunca ninguém bateu à porta a perguntar se eu preciso de alguma coisa.”
Nem GNR, nem serviços sociais. Nada.
“Ainda consigo pegar no carro… mas até quando?”
Eduardo fala com emoção — e com um desabafo que resume tudo. “Dói muito ser velho nestas aldeias… mesmo gostando tanto delas.”
O Sardal ainda ganha vida durante umas semanas no verão, com festas e reencontros. Mas depois… volta ao esquecimento.
“Isto existe 15 dias em agosto. E o resto do ano? Quem cá vive?”
No meio das casas fechadas e das memórias queimadas pelo fogo, resta um homem — e uma pergunta que ecoa no silêncio: Até quando vai o Sardal resistir?
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