Coimbra

Doente terminal no chão das urgências em Coimbra

Susana Brás | 15 horas atrás em 10-01-2026

Imagem: Facebook João Gaspar

Um desabafo emotivo publicado nas redes sociais está a gerar forte indignação e várias reações.

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“Escrevo este texto como filho. Não como especialista em saúde, não como político. Escrevo porque ontem [8 de janeiro] vi a minha mãe, doente oncológica em fase terminal, deitada no chão de um hospital português.”

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É desta forma que começa o desabafo publicado nas redes sociais por João Gaspar de uma doente oncológica, relatando os momentos de desespero vividos no dia 8 de janeiro de 2026.

Segundo o testemunho, a mulher sofre de um cancro generalizado na zona abdominal, encontra-se em quimioterapia, vive com dores constantes e depende de vários dispositivos médicos. “Não consegue andar sozinha nem permanecer sentada por muito tempo. Ainda assim, foi tratada como se fosse apenas mais um corpo à espera”, escreve.

Antes de se deslocarem ao hospital, a família tentou ativar os meios de emergência. “Liguei para a Saúde 24, ninguém atendeu. Liguei para o 112. Disseram que iam enviar uma ambulância. Vinte minutos depois voltaram a ligar para dizer que não havia ambulâncias disponíveis”, relata, sublinhando a gravidade da situação: “Tempo indeterminado quando uma pessoa grita de dores”.

Sem alternativa, a família transportou a doente em viatura própria. À chegada às urgências, o cenário descrito é de total ausência de resposta. “Chegámos com a minha mãe deitada no banco de trás do carro. Não havia macas disponíveis. Disseram-nos para usar uma cadeira de rodas. Ela não aguentava”.

O filho conta que foi a própria família a transportar a doente para o interior do hospital. “Fui eu, com um familiar, que transportei a minha mãe para dentro do hospital. Numa sala cheia de profissionais, ninguém tinha uma solução. A minha mãe gritava de dores”.

Sem maca e sem alternativa, a família tomou uma decisão extrema. “Deitámos a minha mãe no chão, sobre uma manta trazida por nós. No chão de um hospital, em 2026”. O relato acrescenta que só depois da situação começar a ser registada houve intervenção. “Só quando perceberam que aquela imagem estava a ser registada é que alguém começou a agir”.

Após esse momento, segundo o filho, foram prestados os cuidados necessários. “Foi-lhe administrada morfina, duas vezes. Recebeu soro. Foram feitos exames. Os meios existiam. O que faltou foi humanidade”, acusa.

O testemunho termina com um alerta contundente: “Esta carta não é contra os profissionais de saúde. É contra um sistema que permite que uma doente oncológica terminal fique no chão”. Ontem foi a minha mãe. Amanhã pode ser qualquer um de nós”.

“Vergonha do nosso país”

Horas depois, também Susana Santos, prima da doente, recorreu, também, ao Facebook para manifestar a sua indignação com a situação vivida nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), classificando-a como “a vergonha do nosso país”.

No serviço de urgência, a família afirma não ter sido dada prioridade ao caso. “Chegámos às urgências, não deixam passar à frente com 50 pessoas para serem atendidas e recusam arranjar uma cama para se poder deitar”, refere.

Perante a ausência de resposta, a solução encontrada foi semelhante à descrita pelo filho. “O melhor que fizemos para o seu conforto foi deitá-la no chão em cima de um cobertor à espera da vez”, escreve, questionando o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde: “Afinal trabalhamos e descontamos para quê? Quando precisamos somos tratados como lixo”.

Em resposta, a ULS de Coimbra – Unidade Local de Saúde de Coimbra, refere que irá abrir um processo de averiguações. O objetivo é apurar, com rigor e serenidade, todas as circunstâncias associadas ao caso, identificando possíveis melhorias nos processos, na organização e na experiência dos utentes.

O processo “será acompanhado de forma próxima pelo Serviço de Humanização e pelo Provedor do Utente, assegurando a escuta das partes envolvidas, a análise dos procedimentos adotados e a formulação de propostas de melhoria, sempre que tal se revele necessário”

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