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Desvendado percurso escolar de Aristides de Sousa Mendes

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O diplomata Aristides de Sousa Mendes, que ajudou um número indeterminado de judeus a fugir do Holocausto, fez o percurso escolar em Aveiro, asseverou hoje à Lusa o historiador Messias Trindade.

As obras dedicadas a Aristides de Sousa Mendes referem que estudou na Universidade de Coimbra, mas nada dizem quanto ao seu percurso escolar anterior.

Nascido em Cabanas de Viriato, no seio de uma família aristocrática e católica, a biografia conhecida é omissa sobre a vida de Aristides de Sousa Mendes desde a infância até cursar Direito, em Coimbra.

A inclusão do seu nome num rol de confessados e nos anuários do Liceu de Aveiro, compulsados por Messias Trindade, vieram esclarecer o enigma.

Aristides de Sousa Mendes e o seu irmão gémeo, César Sousa Mendes, frequentaram o Liceu de Aveiro e, como internos, o “Colégio Aveirense”, sem que seja conhecida qualquer ligação familiar a Aveiro.

A revelação é feita por Messias Trindade, doutorado em História e especializado em demografia histórica, que começou por encontrar referências à presença dos dois gémeos no “Colégio Aveirense”.

“Consultava um ‘Rol de Confessados’ da freguesia da Vera-Cruz de 1900, com finalidade diferente, quando nas últimas folhas do documento deparei com a lista de alunos e pessoal do Colégio Aveirense”, conta à Lusa.

No “Rol de Confessados”, um livro onde os párocos registavam os nomes dos paroquianos que cumpriram os preceitos quaresmais da confissão e comunhão, dois nomes chamaram a atenção de Trindade.

 “Lá estavam os nomes de Aristides e César Sousa Mendes, com a mesma idade, e como se sabia que o conhecido Aristides tivera um irmão gémeo, a confirmação da identidade acabou por ficar facilitada”, recorda.

Por que motivo os dois irmãos vieram estudar para Aveiro é uma das questões que permanece sem resposta, tanto mais que o pai estava, em 1900, colocado no Tribunal de Coimbra, segundo o historiador.

Messias Trindade adianta uma justificação: “O Colégio Aveirense gozava de uma reputação muito boa, seguramente nos círculos católicos, e acolhia alunos de muitas partes do país”.

Messias Trindade consultava um anuário do Liceu de Aveiro, à procura de elementos de interesse para a análise da população aveirense, quando deparou novamente com os nomes dos dois irmãos.

“A surpresa não se fez esperar quando, no meio dos nomes dos alunos do primeiro ano (1.ª classe, como então se chamava), emergiram os de Aristides e César”, relata.

Segundo o historiador, também o Liceu Nacional de Aveiro tinha alunos de diferentes origens geográficas, “como se constata nas pautas dos alunos onde surge indicada a sua naturalidade”.

“Talvez tenha sido a boa reputação, quer do Colégio quer do Liceu, que tenha condicionado de forma positiva a escolha de Aveiro”, admite.

Os “novos” dados deixam ainda algumas incógnitas como saber onde esteve Aristides e o irmão alojados, antes de irem para o Colégio, quando já frequentavam o Liceu.

 “É inequívoco que os gémeos estavam no Colégio em 1900, mas em 1896 não há registo da sua presença nessa instituição, nem surgem nos ‘Róis de Confessados’, mas constam das listas do Liceu”, observa o historiador.

No Colégio terá depois recebido apoio ao estudo ou mesmo atividades de complemento ao ‘curriculum’ oficial, mas “apenas existe confirmação de Aristides ser interno do Colégio Aveirense no ano letivo de 1899-1900”.

“O elemento que melhor prova a responsabilidade do Colégio na educação dos irmãos está exposto no anuário de 1900, em que é indicado como “Encarregado de Educação” a direção do Colégio”, sublinha.

Em Aveiro, Aristides de Sousa Mendes fez a aprendizagem de línguas estrangeiras, nomeadamente francês e alemão, que seriam fundamentais para a carreira diplomática.

Messias Trindade, que analisou as opções curriculares existentes à época, conjetura sobre os motivos que levaram Aristides de Sousa Mendes a querer aprender alemão em vez de inglês.

“Era uma questão prática: muitos alunos pretendiam seguir Direito e nesse curso havia uma forte influência do direito germânico, para além do romano”, diz.

“Por outro lado, a Alemanha exercia uma forte influência nos campos do desenvolvimento tecnológico, da ciência, da cultura e da economia”, acrescenta.

O Liceu Nacional de Aveiro e também o Colégio Aveirense contribuíram para a formação de um outro diplomata português, Mário Ferreira Duarte, que foi cônsul de Portugal em Berlim, entre 1942-1945.

Messias Trindade anota que a divulgação da língua alemã na época terá contribuído para a formação de uma forte corrente pró germânica na sociedade portuguesa, aquando da primeira guerra mundial.

 

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