Estima-se que será elevado o número de mulheres que vivem em Portugal com dores pélvicas consideradas ‘normais’. No nosso país, à semelhança de outros, persiste um conjunto de patologias ginecológicas frequentemente subdiagnosticadas e/ou incorretamente diagnosticadas, resultado não só, mas também, de uma normalização e desvalorização da dor associada ao período menstrual (dismenorreia) ou à relação sexual (dispareunia).
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E não é só a mulher que tende a perpetuar esta desvalorização, mas também alguns profissionais de saúde, o que contribui para o atraso no diagnóstico de patologias como a endometriose e a adenomiose que têm a dor pélvica como manifestação clínica frequente. Atualmente, o diagnóstico destas doenças é imagiológico. A ecografia ginecológica é o exame de primeira linha e deve ser realizada por um ginecologista ou radiologista com experiência diferenciada nesta área, para garantir uma adequada acuidade diagnóstica. Importa, por um lado, evitar o sobre-diagnóstico de adenomiose e, por outro, a ausência de correta identificação de lesões de endometriose profunda.
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É de salientar que, recentemente a comunidade médica e a sociedade civil têm desempenhado um papel relevante na sensibilização para estas doenças, através da formação dos profissionais de saúde e de campanhas de informação junto da população, o que certamente terá um impacto futuro num diagnóstico mais precoce.
Outra área de preocupação na saúde da mulher é o diagnóstico da síndrome do ovário poliquístico (SOP) na adolescência. Aqui, coexistem dois problemas opostos e igualmente preocupantes. Por um lado, há uma tendência para assumir erradamente o diagnóstico com base exclusiva em achados ecográficos; por outro, as irregularidades menstruais e os sinais de hiperandrogenismo característicos desta fase do desenvolvimento são frequentemente normalizados, atrasando o diagnóstico em jovens que efetivamente sofrem de SOP e que beneficiariam de uma intervenção precoce.
Certas patologias ginecológicas apresentam diagnóstico tardio devido à ausência de manifestações clínicas nas fases iniciais e/ou ausência de rastreio organizado e eficaz. Destacam-se as infeções sexualmente transmissíveis causadas por Chlamydia trachomatis and Neisseria gonorrhoeae, que podem ser completamente assintomáticas e, quando não tratadas, comprometer de forma irreversível a saúde reprodutiva da mulher. Na ausência de sintomas, o diagnóstico destas infeções depende essencialmente de três fatores: literacia em saúde, identificação de comportamentos de risco e procura atempada de cuidados médicos. São três pilares que remetem, inevitavelmente, para questões de educação, acesso e equidade e que mostram como a saúde ginecológica vai muito além da clínica.
O cancro do ovário é, talvez, o exemplo mais dramático do diagnóstico tardio. É frequentemente diagnosticado em estádios avançados, pela inespecificidade dos sintomas e pela ausência de evidência que suporte um programa de rastreio eficaz para a população geral, ao contrário do que acontece com o cancro da mama ou do colo do útero.
A saúde da mulher merece ser priorizada pela própria e todos os profissionais de saúde envolvidos nos seus cuidados. É essencial a existência de consultas acessíveis e em tempo útil, de profissionais com formação diferenciada, de programas de educação da população geral e uma cultura clínica que trate a dor feminina com a seriedade que esta merece. A dor pélvica incapacitante, tantas vezes suportada em silêncio, constitui um elemento essencial para o diagnóstico de determinadas patologias ginecológicas que podem progredir para quadros complexos e incapacitantes. É urgente promover uma mudança de paradigma que reconheça que, neste contexto, o silêncio tem um preço – e esse preço pode ser a própria saúde.
OPINIÃO | Ana Sofia Fernandes, Médica especialista Ginecologia/Obstetrícia no Centro Hospitalar Universitário de São João
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