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“Depois do incêndio só poderia melhorar, mas não”: Exploração de mirtilos na Lousã afetada pela chuva após ter ardido há 6 meses
Imagem: Belaberry
A forte chuva que se fez sentir nas últimas semanas destruiu parte do que restava de uma exploração de mirtilos em Serpins, na Lousã, que já tinha ardido num incêndio há seis meses, tornando cada vez mais difícil recomeçar.
“Achávamos que depois do incêndio só poderia melhorar, mas não”, disse à agência Lusa Raquel Misarela, que criou com o seu companheiro, Filipe Pratas, a Belaberry em 2015, uma exploração em Serpins, no concelho da Lousã, distrito de Coimbra, dedicada à produção de mirtilos.
Depois de terem visto 40% do pomar ser destruído num incêndio em 2017, viram-se novamente a braços com as chamas em agosto de 2025, com danos ainda mais avultados para a exploração (cerca de 400 mil euros), que sofre agora com a força das águas que vêm da serra e com as investidas dos veados junto das plantas que restam.
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O casal ainda não tinha avançado com o projeto de recuperação dos danos de 2025 (as candidaturas só terminaram em janeiro), quando nas últimas semanas viram as águas galgar o ribeiro e entrar com força dentro dos terrenos.
“Houve limpeza das linhas de água nas zonas ardidas, mas deixaram as madeiras junto às linhas. Com estas enxurradas, a madeira cortada veio toda por aí abaixo e começou a entupir tudo”, contou Raquel, referindo que, além da madeira queimada acumulada, os solos na serra não tinham capacidade para reter água face aos incêndios de 2025, aumentando o caudal dos cursos de água.
Segundo Raquel Misarela, um dos terrenos foi galgado “logo a seguir à depressão Kristin” e outro com a depressão Leonardo.
“As plantas mais jovens foram com a água, porque ainda não tinham raízes fortes. As mais fortes [que deveriam começar a produzir este ano] vão ganhar fungos e toda uma série de outras doenças e, como fazemos tudo em modo biológico, os tratamentos são caríssimos e não compensa”, disse, referindo que esses dois terrenos tinham sido praticamente poupados nos fogos.
Segundo Raquel, entre incêndio e inundações, resta uma zona produtiva incólume que acredita que irá sofrer investidas de veados e corsos, depois das vedações terem ardido por completo com o fogo de 2025.
“Poderemos ter alguma fruta, mas é uma quantidade ridícula. Não vai dar sequer para estar à tona da água”, lamentou.
Apesar de sublinhar toda a ajuda de vizinhos, amigos e junta de freguesia, Raquel Misarela afirmou que “é tudo muito desmoralizador”.
“Tivemos tanta ajuda de tanta gente [depois dos incêndios], que quase que nos obriga a tentar. Nós vamos tentar”, disse, antevendo, porém, que o processo de recuperação será lento e incerto.
“Se alguém acreditasse em sinais, que não é o nosso caso, via aqui um: ‘Saiam daí’. O sítio é lindíssimo e sentimo-nos acolhidos pelos nossos vizinhos. Vamos tentar, mas vamos começar a pensar em alternativas”, afirmou.
Quinze pessoas morreram em Portugal desde 28 de janeiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.
O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.