Opinião

Democracia SMTUCiana

OPINIÃO | PEDRO SANTOS | 4 semanas atrás em 23-06-2024

Nos anos 1980, em pleno regime militar brasileiro, um movimento revolucionário emergiu no mundo do futebol e ultrapassou largamente as suas fronteiras. Liderada por ídolos como Sócrates, Casagrande e Vladimir, a Democracia Corinthiana permitiu que praticamente todas as decisões passassem a ser tomadas através do voto igualitário dos diferentes membros do clube, fossem jogadores, treinadores ou funcionários.

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Mas esta não foi apenas uma revolução interna, tornou-se um símbolo de resistência e luta pela democracia e a liberdade, contra qualquer tipo de autoritarismo. Ainda hoje, é lembrada como um marco na luta pelos direitos civis e sociais, inspirando movimentos democráticos e promovendo o ideal de comunidade. Não há muitas imagens mais poderosas do que a fotografia de Sócrates, com um estádio cheio em fundo, envergando por cima do seu mítico número 8 o slogan “Dia 15 Vote”.

Avancemos para Coimbra, junho de 2024… Lê-se na comunicação social que a Câmara Municipal pretende deixar aos trabalhadores a decisão sobre uma eventual transformação dos Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC) em empresa municipal. Uma espécie de Democracia SMTUCiana, então? Parece-me ser precisamente o contrário.

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A intenção tem mais contornos de manobra de desresponsabilização do que de decisão corajosa e enquadrada numa estratégia de futuro.

Aquilo que se anuncia não é mais do que uma tentativa de lavar as próprias mãos em relação às possíveis consequências, com a Câmara a abdicar do papel de representante do povo e gestor dos serviços públicos.

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Se na Democracia Corinthiana as decisões eram tomadas num ambiente de igualdade, a Democracia SMTUCiana isola os trabalhadores, ao deixar por concretizar um envolvimento verdadeiro em todos os aspetos da gestão, que seria o mínimo exigível quando se lança para cima deles a responsabilidade de uma decisão de tão grande impacto. Cava, na prática, um fosso entre esse grupo e todos os outros interessados na matéria, apontando-lhes o dedo de forma preventiva, não vão as coisas correr mal e os eleitores precisarem de encontrar culpados…

E do ponto de vista das obrigações dos decisores políticos, falamos ainda de um reconhecimento da falta de capacidade em dialogar com os funcionários dos SMTUC, mascarando-a de espírito democrático, assim ao jeito de «Vocês façam o que quiserem, que o problema é vosso». Às vezes, faço algo parecido com as minhas filhas, mas sei bem que isso não é forma de resolver as coisas entre adultos… Na verdade, ao ignorar ostensivamente as relações de poder que enformam esta decisão e a situação de dependência e vulnerabilidade do grupo em causa, a ideia avançada é uma dissimulada tentativa de o tornar ainda mais permeável às pressões de diferentes tipos de poder.

A verdadeira democracia exige transparência, responsabilidade e participação. A Democracia SMTUCiana, tal como proposta, falha em todos esses aspetos. Em vez de valorizar os trabalhadores e o seu papel, não passa de uma maneira conveniente de delegar a responsabilidade e evitar as críticas públicas. Estarei a fazer claque pela sua derrota.

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