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De abandonado a génio: O chef que mudou a cozinha para sempre

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 2 horas atrás em 12-01-2026

Marie-Antoine “Antonin” Carême (1784–1833) não foi apenas um chef; foi o arquiteto da gastronomia moderna. Nascido na miséria em Paris e abandonado pelo pai aos 12 anos com a frase — “Este é o último dinheiro que posso gastar contigo” — Carême transformou o abandono numa ambição sem limites, construindo sozinho um legado que ainda hoje define a cozinha profissional.

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A sua carreira teve início como ajudante de cozinha, seguindo-se a formação com o prestigiado pasteleiro Sylvain Bailly, onde descobriu na doçaria uma forma de arte. Paralelamente, Carême desenvolveu uma profunda paixão pela arquitetura, passando horas na Biblioteca Nacional a estudar desenhos técnicos. Dessa influência nasceram as célebres “pièces montées”, esculturas monumentais em açúcar que imitavam templos, palácios e fortalezas, elevando a pastelaria ao estatuto de belas-artes.

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Embora pouco se saiba sobre a sua vida privada — devido à destruição de muitos documentos durante a guerra franco-prussiana de 1871 — é consensual que Carême era um trabalhador incansável e extremamente rigoroso no que dizia respeito à higiene, disciplina e organização da cozinha. Dormia pouco e escrevia de forma obsessiva, deixando obras fundamentais como L’Art de la Cuisine Française, nas quais sistematizou o conhecimento gastronómico da sua época.

Entre as suas principais contribuições técnicas destaca-se o aperfeiçoamento da massa folhada, através da técnica das cinco voltas e meia, responsável pela textura leve e arejada que se mantém como referência até hoje. A partir desta base, criou preparações emblemáticas como o vol-au-vent e o mil-folhas, além de aperfeiçoar o merengue, explorando tanto o seu valor técnico como decorativo.

Carême foi também pioneiro na organização racional da cozinha. Classificou os Quatro Molhos-Mãe — béchamel, velouté, espagnole e allemande — estabelecendo uma lógica estrutural da qual derivam centenas de outros molhos. Introduziu e consolidou o uniforme de cozinha, com o casaco branco e o toque blanche, e contribuiu para a divisão funcional do trabalho ao desenvolver o conceito de garde-manger, a área da cozinha responsável pelas preparações frias, conservação dos alimentos e organização dos ingredientes. Está ainda associado à difusão do serviço “à la russe”, em que os pratos são servidos em sequência, valorizando cada preparação individualmente.

O seu talento levou-o a cozinhar para algumas das figuras mais poderosas da Europa, entre as quais Napoleão Bonaparte, o Príncipe Regente da Inglaterra (futuro Jorge IV), o Czar Alexandre I da Rússia e o diplomata Talleyrand, utilizando a gastronomia como instrumento de prestígio e diplomacia.

Antonin Carême faleceu a 12 de janeiro de 1833, em Paris, aos 48 anos. No aniversário da sua morte, permanece uma figura incontornável da história da culinária, tendo transformado a cozinha numa disciplina organizada, estética e intelectual, cujos princípios continuam vivos nas cozinhas profissionais de todo o mundo.

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