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Coreógrafo Benvindo Fonseca revela talento jovem em espetáculo no Convento São Francisco

Notícias de Coimbra | 1 hora atrás em 07-04-2026

O Convento São Francisco, em Coimbra, recebe no domingo o espetáculo “Uma noite com Benvindo Fonseca”, dirigido pelo bailarino e coreógrafo Benvindo Fonseca, que resulta do projeto “Rampa”, na quarta edição, direcionado a jovens.

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“É um espetáculo para sentir e é um espetáculo simples. Ele é intenso, mas é simples e é um espetáculo para todos, que era essa também a intenção. Não se precisa vir cá pensar muito”, disse Benvindo Fonseca, antigo solista do extinto Ballet Gulbenkian, no final do ensaio de imprensa.

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O “Rampa” é um projeto de criação e formação artística, integrado no festival “Abril Dança Coimbra”, e que, nesta quarta edição, contou com 24 intérpretes, com idades entre os 13 e 29 anos, a maioria da região Centro.

Benvindo Fonseca explicou que pretendeu fazer um programa em que as pessoas “possam sentir, ver o belo”, apresentando três peças distintas, que tentou que “fossem as mais diferentes possíveis, apesar de haver semelhanças”.

Segundo o coreografo, o primeiro bailado intitulado “Tábula rasa”, com música original de Miguel Berkemeier, é de homenagem à sua mãe e conta a “história de vida de um ser humano com as suas vicissitudes, energias, encontros, desencontros e o decorrer da vida com envelhecimento”.

Já “Consolation”, de homenagem ao pai, é um ‘bailado de pontas’, inspirado na obra do compositor Liszt e que é acompanhado ao piano por Mercedes Cabanach.

”É mesmo uma consolação para consolar, estar parado, absorver, pensar, sentir e depois tirar a nossa história como quisermos”, descreveu.

O espetáculo termina com o bailado “The pulse of earth”, que Benvindo Fonseca fez na China e que “nunca foi feito na Europa”, com música tradicional chinesa.

Aos jornalistas, o coreógrafo disse que a maior dificuldade foi “tentar unificar” o grupo, com universos muito distintos, algo que se alcançou “pelo querer” dos jovens e do seu próprio, assim como “acreditar e arriscar”.

Sobre o processo de formação, Benvindo Fonseca apontou um sentimento de gratidão, mas também de frustração por ver um “potencial que não existe”, deixando um repto para a criação de uma companhia.

“Este teatro tem as condições todas para ter uma companhia. Coimbra merece uma companhia, o país merece mais companhias”, defendeu.

Gonçalo Dias, de 17 anos, não escondeu o “orgulho de estar a participar no projeto”, destacando a ajuda mútua entre os elementos do grupo e admitindo que o principal desafio “é a falta de tempo”.

“Tem vindo a ser uma aprendizagem rápida, mas se tivéssemos um pouco mais de tempo acho que ainda dava para explorar mais, entrar mais na intenção da peça”, apontou o jovem do Porto.

Já Sancha Santos, de 17 anos, descreveu a experiência como única e assumiu que o último bailado do espetáculo foi o “mais difícil”, por requerer muita energia e muito esforço.

“Confesso que no início não tinha nada disso e o Benvindo [Fonseca] foi buscar isso dentro de mim. Acho que é isso que nos faz especiais. Nós conseguimos ser a transparência que ele quer que a gente seja ao transmitir a mensagem que ele quer que a gente passe”, disse a jovem de Coimbra, emocionada.

Para Núria Cardoso, de 20 anos, o “mais difícil foi mesmo começar”, depois de ter estado muito tempo parada, destacando o facto de o coreógrafo “saber abraçar” as dificuldades e os defeitos de cada um e “trabalhar a partir delas”.

“Isso acaba por nos trazer um pouco de segurança e conforto”, disse a jovem de Tomar.

Já David Murta, de 20 anos, manifestou-se “muito realizado” por estar de regresso ao projeto que já tinha integrado em 2003 e que admitiu o ter ajudado no seu percurso.

“Acabou por me dar competências que até então não tinha e que me conseguiu catapultar. Depois saí da escola e tive a oportunidade de estar dois anos numa companhia”, contou.

O espetáculo “Uma noite com Benvindo Fonseca” tem a duração de duas horas e os bilhetes custam entre oito e 10 euros.

O coreógrafo nasceu em Moçambique, em 1964, filho de pais cabo-verdianos, com ascendência indiana e portuguesa. Iniciou os estudos de dança com Ana Macara, prosseguindo-os no Conservatório Nacional e nos Cursos da Fundação Calouste Gulbenkian. Seguiram-se estágios em Londres e Nova Iorque, e o trabalho com mestres como Ruth Silk, Maggi Black, Betsy Hog e William Burnman.

Nos Estados Unidos, teve abertas as portas da companhia de Alvin Ailey, mas Benvindo Fonseca acabaria por ceder ao convite do então diretor artístico do Ballet Gulbenkian, Jorge Salavisa, que lhe ofereceu o lugar de solista.

Ao longo dos anos, trabalhou com coreógrafos como Mats Ek, Hans van Manem, Christopher Bruce, Jiri Kylian, Nacho Duato, Paul Taylor, Vasco Wellenkamp, Olga Roriz. Depois, um acidente de trabalho – uma fratura da tíbia – afastou-o de cena, e o processo de recuperação passou pela reformulação da carreira, mas sempre na dança.

Benvindo Fonseca afirmou-se então como coreógrafo. Assinou figurinos e coreografias para o Ballet Gulbenkian, cofundou e foi diretor artístico do Ballet Contemporâneo de Lisboa. Criou para o Teatro Nacional D. Maria II, Teatro O Bando, Teatro Experimental do Porto, Companhia de Bailado Contemporâneo, companhias de dança de Almada e Évora.

No seu currículo encontram-se ainda criações para a Compañía Úrsula López, de Espanha, o Stadttheater Hildesheim e a Ópera de Berlim, na Alemanha, entre outras estruturas de Argentina, Brasil, Cuba, Estados Unidos, Itália, Grécia, México, Polónia, República Dominicana.

Entre as suas obras destacam-se o solo “Dança Árabe”, sobre Tchaikovsky, estreada com Maria João Pires em piano, e o ‘pas de deux’ “Povo que Lavas no Rio”, cantado por Amália. Houve ainda “Makeba”, “Para que a Terra não Esqueça”, “Castañeda”, sobre música cigana, “Uma Noite com Ella”, a partir do repertório de Ella Fitzgerald, “Cromeleque”, sobre o Requiem de Mozart, e “Mosaico”, com música de Pedro Jóia, inspirada nas origens do Fado.

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