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Coimbra

Começaram obras na Rua dos Mártires da Tragédia do Mondego. Conheça a história que ceifou 4 vidas (com vídeos)

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A Câmara Municipal de Coimbra deu início esta segunda-feira ao alargamento do pontão na Rua dos Mártires da Tragédia do Mondego, na localidade de Pé de Cão. O Notícias de Coimbra foi conhecer a dramática história que ceifou quatro vidas e dá nome a este arruamento.

As obras, que têm a duração prevista de dois meses e integram uma empreitada mais ampla que contempla a reposição da segurança rodoviária e pedonal em infraestruturas municipais, taludes e muros nos quais foram identificados danos em 10 zonas do concelho, foram o pretexto para o Notícias de Coimbra ouvir alguns testemunhos sobre aquela que foi uma das mais terríveis histórias ligadas ao Mondego.

Era o último dia do ano de 1978 quando um grupo de cinco amigos, jovens caçadores, atravessou uma das antigas pontes de madeira que noutros tempos aproximavam as margens do Mondego. O caudal estava alto e os homens caíram ao rio tendo sido arrastados pela corrente. Só um sobreviveu. Ainda é vivo mas não fala sobre o assunto. Nunca falou e as famílias das vítimas elogiam este voto de silêncio.

“Era miúdo estava a brincar na rua e veio gente a pedir socorro”, recorda Alcides Lopes, presidente da direção do Centro Social de São João. “Os corpos não apareceram logo naquele dia, foram dias de angústia até que foram encontrados”, lembra.

A ponte era “de madeira, presa em espias de aço”, virou “e foram todos para o rio, só um é que se salvou”, relata o responsável que é amigo do sobrevivente. “Habituámo-nos a conviver com ele sem falar nesta história, ele não fala, devido ao trauma, certamente”.

“É um trauma que não se pode imaginar. Ver os colegas perecerem de forma tão dramática”, reforça Amável Batista. Tinha 38 anos em 1978, hoje leva 82. “Lembro-me que por volta da hora do almoço fomos alertados. Ainda andaram a tentar indagar se encontravam alguém pelas margens. Isto causou muita dor para toda a gente”, garante, lembrando que teve até que receber assistência médica “quando a tragédia se confirmou”. “Foram amigos que partiram. Éramos todos vizinhos”, sublinha.

“Foi de facto uma tragédia que mexeu com toda a gente. Eram pessoas que nós conhecíamos bem e estavam na flor da idade”, lamenta Carlos Jorge, à época também ele um jovem de 19 anos. “As pessoas mobilizaram-se, vieram os bombeiros, o sobrevivente estava agarrado à ponte que ia abaixo e acima com o bater da água até que o conseguiram tirar com vida”, relata. 

Além do nome de uma rua, a desgraça ficou imortalizada num memorial erigido em 2013 pelo Centro Social de São João, a ARCA e a União de Freguesias de São Martinho do Bispo e Ribeira de Frades, próximo do local onde tudo aconteceu, em homenagem a José dos Reis Romeiro Coelho, António Alberto Neves Lemos, António Gomes Correia e Álvaro Salgado Vilão. No monumento, onde estão representadas a ponte, a água do rio e as pedras do leito, já só se leem os nomes de Álvaro Vilão e António Lemos, as letras dos restantes foram do local, numa atitude de vandalismo. Ainda assim nunca faltam velas e flores no local.

O fatídico dia 31 de dezembro de 1978 nunca foi esquecido. Há quem diga que a causa foi “a irreverência da idade”, um “gesto de brincadeira ou de inconsciência”. Só os envolvidos poderiam contar o que realmente aconteceu. Mas o Mondego calou quatro e o quinto, sobrevivente, silenciou-se em respeito à memória dos companheiros. 

 

Veja o direto NDC com Alcides Lemos:

Veja o direto NDC com Carlos Jorge:

Veja o direto NDC com Amável Batista:

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