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Com 95 anos inspira voluntárias a tricotar casacos para meninas

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Tricotadeiras voluntárias dos 31 aos 95 anos estão a confecionar casacos brancos do mesmo modelo para as meninas mais pequenas que, a 20 de janeiro, irão desfilar no corso da Festa das Fogaceiras, em Santa Maria da Feira.

Aquele que é um dos desfiles mais emblemáticos do distrito de Aveiro realiza-se há mais de 500 anos consecutivos para agradecer a São Sebastião pela sua proteção contra a peste negra e vem envolvendo em cada edição centenas de meninas e raparigas trajando vestido de cerimónia branco, em muitos casos emprestado pela câmara municipal. Até aqui, o guarda-roupa do evento não dispunha, contudo, de casacos de feitio adequado em número suficiente para todas as participantes.

Procurando evitar agasalhos de pêlo, kispos ou polares pouco ajustados à sobriedade do corso, a autarquia lançou então este ano um apelo destinado a homogeneizar a indumentária das fogaceiras mais pequenas: a quem tivesse experiência em fazer malha e se voluntariasse para tricotar pelo menos um bolero até às vésperas da festa, a câmara cedia a devida lã, o molde do casaco e, se necessário, também as agulhas.

“A adesão foi muito grande e acabámos por envolver muita gente não só da Feira, mas também da comunidade mais alargada da região”, conta Ernestina Teixeira, funcionária municipal que, reputada pelos seus enxovais de bebé em tricot, ficou a coordenar o projeto “Ponto Fogaça” – expressão, aliás, que passou a designar o ponto de malha específico em que é feito o casaco e que antes uns chamavam de “ponto abelha” e outros de “ponto de arroz de máquina”.

As mais de 50 voluntárias inscritas vieram assim de vários concelhos, entre os quais Vale de Cambra, São João da Madeira, Ovar, Oliveira de Azeméis, Vila Nova de Gaia e até Aveiro, para onde seguiram por correio os 200 gramas da malha que foi escolhida para o projeto por ser de fabrico nacional, “em branco imaculado, quentinha e, sobretudo, macia e fofa, para ser agradável ao toque e confortável para as meninas”.

Algumas dessas voluntárias encontraram-se no Imaginarius Centro de Criação para tricotar em conjunto e a mais nova do grupo era a Inês Luís, de 31 anos, que se formou em modelismo, mas aprendeu com a mãe técnicas mais tradicionais de confeção. “Quando ela me ensinou tricot, tornou-se viciante e depois fui procurando aprender mais, para fazer coisas novas e diferentes”, conta ela, sem tirar o olhar das agulhas.

Ao casaco das fogaceiras – que tem que ser curto para não ocultar a faixa de cetim colorido que elas envergam à cintura – Inês vai agora dedicando algumas pausas durante o dia, quando o trabalho lhe permite e a disposição é a adequada para que a malha saia sempre “regular e perfeitinha”.

Esperando tricotar pelo menos dois boleros até janeiro, a jovem antecipa que o mais difícil em cada peça será “fazer as cavas” e Ivone França confirma-o, até porque, aos 56 anos e habituada a tricotar desde criança, já coseu mangas suficientes para o saber. É por isso que tricota quase em modo automático, ao lado da mãe, que também cativou para o projeto.

“Antes da internet e das redes sociais, a minha mãe ensinava toda a gente e eu tinha que aprender rápido para não ficar para trás”, recorda Ivone, que confessa ter sido particularmente produtiva durante a gravidez, mas não tem ilusões quanto ao desinteresse dos filhos pelo seu ‘hobby’.

Com uma vivacidade que não denuncia os seus 80 anos, Benvinda França reconhece que trabalhou muitos anos no negócio das lãs, depois de ter aprendido a tricotar com umas agulhas que a madrinha lhe fez “a partir das varas de um guarda-chuva”. Ensinou a técnica a várias gerações de mulheres, muitas vezes até para que elas pudessem ter nisso algum proveito económico, e acha natural, portanto, que também na reforma acabe por contribuir para o ponto alto do feriado municipal da Feira.

“Foi a Ivone que me meteu neste sarilho, mas estou a gostar muito”, admite, irónica. “Sempre celebrei a Festa das Fogaceiras em casa – comprava uma data de fogaças para oferecer à família e a pessoas amigas – e gosto da ideia de agora ver as meninas mais arranjadinhas na procissão, sem aqueles casacos que destoavam tanto do resto da roupa”, explica.

Fazendo as contas a um bolero por cada três serões na companhia do televisor, sempre com o fio preso ao ombro para que ele não se suje ao raspar repetidamente o pescoço, Benvinda não se despede do grupo sem antes anunciar: “Comprometo-me a fazer, no mínimo, cinco casacos para a festa”. (Aplausos e assobios de aprovação; filha babada a repetir: “Não vos tinha dito que ela é que era a máquina?”)

O presidente da Câmara Municipal da Feira ainda passou pela sala a ver se cumprimentava as senhoras, mas já só encontrou novelos de malha e os primeiros boleros completos. Ao apreciar os casaquinhos, estava satisfeito. “Estas pessoas estão a ocupar o seu tempo livre de forma saudável e com um propósito muito nobre. O projeto está a unir diferentes gerações e a recuperar a tradição dos serões a tricotar, quando uma boa conversa espantava os problemas do dia-a-dia”, defende Emídio Sousa.

Realçando que o “Ponto Fogaça” tem assim o mérito acrescido de “combater o isolamento e prevenir episódios de ansiedade e depressão”, o autarca conclui: “Muitas das voluntárias têm-nos dito que esta atividade é uma terapia, que trouxe ânimo aos seus dias e lhes exercita a agilidade mental, o foco e a destreza manual. Sentem-se felizes e motivadas, e isso, por si só, já é motivo de celebração”.

por Alexandra Couto, da Agência Lusa

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