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Coimbra: Mundos e Fundos “descobre” música que estava em silêncio há mais de 300 anos

Notícias de Coimbra | 12 meses atrás em 27-05-2023

Um encontro fortuito entre dois musicólogos originou o projeto “Mundos e Fundos” da Universidade de Coimbra, em que vários investigadores têm contribuído para se poder ouvir a música de manuscritos dos séculos XVI e XVII votados ao silêncio.

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Não há cobras, nem nazis, nem um chicote, mas há um encantamento em torno do artefacto que faz com que Hugo Sanches, músico e investigador, relacione o trabalho em torno dos manuscritos musicais do Mosteiro de Santa Cruz dos séculos XVI e XVII com os “Salteadores da Arca Perdida”.

“Quando ouvimos os primeiros sons daquela música, há uma sensação, uma emoção, como nos ‘Salteadores da Arca Perdida’. É qualquer coisa de fantástico, estar perante um artefacto e o deslumbramento de ouvirmos sons que estavam em silêncio, muitos deles que foram tocados talvez uma única vez, em 1640 ou em 1650”, conta à agência Lusa o músico que fez doutoramento em torno de um dos vários manuscritos musicais guardados na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC).

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O “Mundos e Fundos” surgiu depois de Paulo Estudante e José Abreu, fundadores do projeto, se terem encontrado por acaso na sala dos reservados da BGUC em 2006, cada um “com as suas fontes e manuscritos”, e “a sorte e o destino” fizeram com que se encontrassem, outra vez, em 2010, já como docentes da Universidade de Coimbra.

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Em 2011, lançaram o projeto que tem como particularidade dar a conhecer “um património musical imenso” – os manuscritos do Mosteiro de Santa Cruz -, mas em que faz parte da própria investigação a interpretação daquelas obras que estavam por ouvir há séculos, disse Paulo Estudante.

A maioria dos investigadores são também músicos e criam uma espécie de laboratório que lhes permite acrescentar informação à sua investigação, a partir da interpretação que fazem da música.

“O Tiago Simas, o Hugo Sanches e o Luís Toscano [todos membros do projeto] correspondem à situação ideal, porque são capazes de fazer o trabalho de musicologia, estudar a fonte, mas também serem capazes de tocar e interpretar. É essa caminhada que se está a fazer na música antiga, de gente empoeirada que mistura investigação e interpretação”, salientou Paulo Estudante, realçando que esses dois mundos “não se intercetavam”.

Com antagonismos antigos quebrados, os laboratórios musicais criados no âmbito de doutoramento deram lugar ao surgimento de vários grupos bastante ativos que tocam música do Mosteiro de Santa Cruz (mas também de outras fontes): o Bando de Surunyo (a partir do doutoramento de Hugo Sanches) e Capela Sanctae Crucis (Tiago Simas Freire), assim como Os Cupertinos (de Luís Toscano), que não surgiram no projeto mas que se relacionam com ele.

“Esses três grupos são os mais destacados, mas já há outros grupos em gestação, como os Quarto Tom, os Suave Armonia ou o Canto Mensurable”, explicou o cofundador do “Mundos e Fundos”.

Hugo Sanches, músico de formação que toca alaúde e outros instrumentos antigos de cordas, começou o doutoramento na Universidade de Coimbra em 2013, no âmbito do “Mundos e Fundos”, ainda na “infância” do projeto.

Trabalhou um manuscrito de música vernacular, com uma grande maioria das músicas compostas para festividades religiosas.

Ao contrário de hoje, essas festividades eram momentos “alucinantes”, com música e dança extremamente festiva e composta de forma consciente para “deslumbrar, comover e doutrinar”, recordou.

“É uma música muito divertida de se ouvir”, notou.

Para a interpretação destas músicas, não basta tocar as notas que tem à sua frente, mas embarcar numa “imersão no contexto para que a interpretação possa ser coerente com a altura em que foram produzidas as músicas”, aclarou Hugo Sanches.

Segundo o investigador, a maioria das músicas têm apenas referência para vozes e uma “linha grave instrumental, o chamado guião”.

A interpretação acaba por ir muito ao encontro da ideia do jazz, em que surge muita liberdade para acompanhar e harmonizar a partir da tal linha grave, explicou.

“Há todo um lado para acrescentar e se o compositor ouvisse não se ia importar com isso, porque pressupunha que alguns elementos seriam adicionados pelos músicos”, acrescentou.

Para além da interpretação e da investigação, está também associado ao projeto um trabalho de restauro dos manuscritos, que são depois guardados na casa-forte da BGUC, onde estão grande parte dos tesouros da instituição.

O restauro é “como resolver um puzzle”, em que se procura ‘encaixar’ páginas soltas ou partes de folhas, num processo que, por vezes, pode demorar meses, salientou o cofundador do projeto.

Recentemente, o “Mundos e Fundos” avançou com a plataforma “Bridging Musical Heritage”, apoiado pelo programa Europa Criativa, em parceria com a Universidade de Valladolid (Espanha), dois grupos musicais e a empresa de gestão e agenciamento artístico Artway.

Esta plataforma científica e artística prevê concertos, intercâmbio de conhecimento entre instituições e oficinas, entre outras atividades, e terminará em junho de 2024, com uma semana inteira de eventos, realçou Paulo Estudante, que garante que ainda há muito manuscrito à espera de ser estudado e, se possível, dado a ouvir.

 

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