Opinião

Coimbra é uma canção (dos Beatles)

Notícias de Coimbra | 1 semana atrás em 11-02-2024

Escutei esta semana alguém usar a frase «Coimbra é uma canção», subvertendo a letra que define a cidade como uma lição, mas provavelmente fazendo justiça ao papel do fado na construção da sua identidade, seja por bons ou maus motivos. «Ainda és capital», canta-se também nesse tema, no que certamente não será – mas fazia sentido que fosse – uma referência ao facto de a Cidade já ter sido, ou procurado ser, capital de tudo e mais alguma coisa, menos daquilo cujo epíteto faz por merecer: Capital do Desapontamento.

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Estava de tal maneira entretido nestes pensamentos, que duas dúvidas não me saíam da cabeça… Porque é esta deturpação da letra original tantas vezes repetida? E afinal, que canção é Coimbra? Se para a primeira pergunta não encontrei resposta, a não ser uma insuficientemente fundada suspeita de uma espécie de Efeito Mandela (um fenómeno em que um grupo de indivíduos compartilham memórias falsas de eventos que nunca ocorreram), para a segunda creio ter sido mais bem-sucedido…

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Mas antes de partilhar a minha conclusão, devo reconhecer que Coimbra será, necessariamente, canções diferentes para pessoas diferentes. Por exemplo, quem sempre aqui viveu ou quem apenas por aqui esteve de passagem escuta, necessariamente, melodias diferentes: os primeiros talvez se dividam entre “Love Is a Losing Game”, de Amy Winehouse, e “Love to Hate You”, dos Erasure; enquanto os segundos poderão estar na equipa “Love At First Sight” (Kylie Minogue) ou na equipa “I Hate You” (Frank Carter & The Rattlesnakes). Haverá também aqueles que podem achar que Coimbra é “She Hates Me”, dos Puddle Of Mudd, cenário tangível da simbologia do amor não correspondido.

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Para quem estudou na Universidade e nunca mais voltou a Coimbra depois de concluir o curso, talvez seja “We Are Never Ever Getting Back Together”, de Taylor Swift – a menos que tenha sido estudante de Erasmus, caso em que a canção será provavelmente “Hungover”, de Kesha.

E, claro, para aquele particularmente interessante grupo de políticos que nasceu ou viveu em Coimbra, mas faz o seu melhor por esquecer essa circunstância, a Cidade será “Somebody That I Used to Know”, de Gotye.

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Creio, porém, que a canção que mais se relaciona com Coimbra será “Now and Then”, o mais recente tema editado dos Beatles. Gravada inicialmente no final dos anos 1970, foi recuperada para lançamento em novembro de 2023. Tem a voz de John Lennon, a guitarra de George Harrison (gravada em 1995) e contribuições dos Beatles sobreviventes, Paul McCartney e Ringo Starr. Mas, pelo menos aos meus ouvidos, não soa a grande coisa.

Tentando justificar-me: tem tudo o que se sabe que é preciso para ter sucesso, até para ser verdadeiramente especial, mas existe algo indefinível que leva a que não concretize todo o seu potencial.

Da sensação de que, apesar desse rico conteúdo, continua a faltar algo, resulta uma indefinível melancolia subjacente, provavelmente por ser uma construção feita em cima da memória do passado, quando, na verdade, esse passado já não pode ser reconstruído da mesma forma. Tal como Coimbra, digo eu.

OPINIÃO | PEDRO SANTOS – ESPECIALISTA EM COMUNICAÇÃO

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