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Coimbra

Coimbra: “É possível ser feliz com cancro” apesar das muitas lutas que é preciso travar (com vídeo)

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Catarina Quintas, 46 anos, luta há seis anos contra o cancro da mama. Uma luta difícil, imprevisível, que trava diariamente mas que não a impede de ser feliz, já que são muitas as bênçãos que a vida lhe dá continuamente.

A família e os amigos são o seu maior suporte, desde o primeiro diagnóstico, em 2016. Uma diferença na mama levou-a a procurar, em maio, a médica de família e a fazer os primeiros exames. A mamografia e a ecografia não apontavam para nada de preocupante e as recomendações era para que se repetissem os exames seis meses depois.

Mas a tranquilidade não surgiu e, dois meses decorridos, quando regressa de férias, procura novamente a médica de família e pede novos exames. Já não fez a mamografia no mesmo local e, neste caso, o resultado era claro. Tinha cancro da mama.

A partir de então foi um desenrolar de exames e biópsias, apesar de todos acharem que não era nada de grave. “Foi sempre uma luta minha. Eu é que insistia. Só eu é que não achava que não era nada”, recorda.

A própria médica no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Coimbra também desvalorizou. Acabou por lhe fazer biópsia às duas mamas. Era um exame “às cegas”, como disse, já que não encontrava nada. Mas encontrou! Carcinoma mamário, já em estadio 3.

Estava em setembro e um mês depois fez “a excisão do gânglio sentinela, que deu positivo, já tinha rebentação de cápsula e já tinha ramificações”, conta. A axila foi limpa, a excisão do gânglio correu bem e foi possível determinar a terapêutica para reduzir o tumor.

Catarina Quintas fez, nessa altura, 16 ciclos de quimioterapia, quatro fortes e 12 mais leves que se prolongaram por cerca de seis meses. Tirou a mama em maio de 2017 e depois teve que recuperar para fazer fisioterapia devido às operações, primeiro ao gânglio e depois à mama. Seguiram-se 25 sessões de radioterapia, as duas últimas já com queimaduras, e voltou à fisioterapia para movimentar o braço. Nessa fase sofreu bastante, até porque a medicação tinha sequelas, provocando dores nas articulações e menopausa precoce.

Mas a vida segue o seu rumo e volta ao trabalho, na Loja das Meias, na Baixa de Coimbra, onde sempre apoiaram. Continuava em vigilância mas acreditava que tudo retornaria a normalidade.

Mas, passado ano e meio, no final de 2019, a doença volta. Os marcadores tumorais aumentam e a TAC mostra um nódulo no fígado. A biópsia indica que não se trata de um “cancro primário” mas de uma metástase do cancro da mama.

Seguiu-se a operação ao fígado para tirar o nódulo. Só já durante a intervenção é que a equipa médica viu que não era apenas um nódulo único. Foram retirados seis e seguiu-se nova medicação para tratar o cancro.

“Na primeira vez penso que estou bem, passado ano e meio regressa, volto a pensar que estou bem e surge pela terceira vez, passado mais cerca de um ano”, explica.

Foi depois de ter aparecido a primeira metástase que Catarina Quintas começou a mudar completamente a sua vida. Alterou todos os seus hábitos alimentares, com a ajuda de uma nutricionista que procurou, uma vez que o IPO não tem essa resposta, e começou a fazer mais exercício físico. A nível alimentar, passou a consumir sobretudo o que o marido produz na horta, bem como os animais que cria. Carnes vermelhas, açúcar, refrigerantes e bebidas alcoólicas não entram na sua dieta. Com a exceção dos fritos, mantém as formas de confeção habituais mas passou a fazer uma alimentação completamente diferente. Mas não foi a única a mudar. Tal como rapou a cabeça quando lhe caiu o cabelo pela primeira vez, o marido também mudou todos os seus hábitos alimentares. Não faz apenas a mesma alimentação que Catarina Quintas mas é um dos grandes impulsionadores da mudança, procurando receitas novas e novos produtos que lhe possam fazer bem.

Neste momento, a lutar contra a segunda metástase no fígado, que não pode ser operada, vai já na quinta linha de tratamento. Explica que “há uma linha que tem que ser seguida”, mas, caso o corpo não reaja à medicação, passa-se para novo tratamento”, porque os marcadores têm que estar dentro de determinados parâmetros e os seus estão sempre alterados.

“Eu sei que não tem cura. Nesta terceira vez que me apareceu não dá para operar porque não é uma lesão única mas várias, no fígado. Fiz uma tomografia por emissão de pósitrons (PET) e dá também num gânglio na zona abdominal e na membrana que protege os órgãos abdominais”, refere.

O tratamento destina-se a estabilizar a doença mas como continua a evoluir é necessário continuar a testar novos métodos. Está, então, na quinta linha da medicação mas há ainda muitos tratamentos que pode experimentar, tratando-se de cancro da mama.

“Há muitos tratamentos que ainda posso experimentar para ver como é que o organismo reage. Normalmente ao fim de três semanas já tem que haver resultados. Se não há tenho que se passar para outro. É isso que tem acontecido”, explica.

Catarina Quintas está neste momento a fazer uma pausa na quimioterapia para poder fazer novos exames. Começou nova sessão em setembro, quando se começou a sentir muito cansada e os exames comprovaram que os marcadores estavam a aumentar. Como o corpo não reagiu, prepara-se para testar novo tratamento. Espera que o cansaço que sente agora passe e que tenha novamente mais mobilidade. A consulta está marcada para 9 de novembro e nessa altura estará há já três semanas sem tratamento, o tempo necessário para que a doença possa evoluir um pouco, de forma a que os exames mostrem com precisão o que se está a passar.

São já seis anos de consultas e exames e o nervosismo mantém-se. Mas vai sempre com o marido e diz que nunca se sente “sozinha e desprotegida” pois sabe que tem ali “uma âncora a que se pode agarrar” e que nunca a deixa ir abaixo.

Catarina Quintas não pode ser operada. “Não tem cura. É ir vivendo e darem-me qualidade de vida como eu tinha até há uns meses atrás, em que conseguia fazer tudo”, diz, sempre determinada a olhar para tudo com uma visão positiva. Admite que não foi fácil reagir à notícia do cancro e depois a estas reincidências. Mas sublinha que “há coisas piores” e que, apesar de tudo, a balança pende sempre para o lado positivo.

“Olhar para os meus filhos e ver que estão bem, que estão felizes e que têm saúde é uma força que eu tenho para continuar a lutar e para continuar a acompanhá-los”, frisa, não esquecendo também a ajuda e força que a família e os amigos lhe dão e que a fazem querer, cada vez mais, mostrar que consegue enfrentar todas as batalhas que surjam neste caminho.

E tem sido sempre juntos, com o marido Filipe e os filhos Martim e Beatriz, que tem travado esta luta e que tem enfrentado os momentos mais difíceis. Ao contrário do que se possa pensar, a queda do cabelo não foi um problema da primeira vez. Lidou muito bem com a situação, na certeza de que fazia parte do processo de cura e de que começaria a crescer no final do tratamento. Conta que só usava lenço quando tinha frio ou para proteger do sol e que até brincava com o marido, a quem perguntava de estava muito despenteada.

Nesta segunda vez admite que foi mais difícil. Também devido à imprevisibilidade dos tratamentos. Agora faz quimioterapia oral, porque já não tem veias que “suportem a medicação intravenosa”, mas é sempre incerto se o cabelo vai cair ou não. “Era suposto ainda estar sem cabelo nesta fase mas já está a crescer”, conta, explicando que o que mais custa é ver-se sem pestanas, já que ao olhar-se ao espelho sente que “a doença está mais presente”.

Com ou sem cabelo, admite que “quase nunca” se consegue abstrair da doença, sobretudo agora que se sente mais debilitada. Mas houve períodos longos, nestes seis anos, em que conseguiu esquecer-se de que estava doente porque fazia a sua vida normal. Fazia, até, aquilo que nunca tinha feito antes, como caminhadas de 12 e 14 quilómetros, com alguma corrida pelo meio. Considerada uma “força da natureza”, na primeira semana de setembro ainda fez parte da comissão de festas de Botão, na União das Freguesias de Souselas e Botão, e desfrutou como poucos – dançou, tocou bombo e até esteve na barraquinha dos shots.

O cansaço e as dores nas costas começaram na segunda semana, os primeiros sinais de que os marcadores estavam novamente alterados. Foi então que começou a fazer novamente quimioterapia. Agora ainda se sente fragilizada e aguarda pelo sucesso do novo tratamento que vai começar dentro de poucos dias. Tem saudades dessa energia e adrenalina e quer estar bem para fazer o próximo trail das Azenhas, que vai para a segunda edição no próximo ano e que foi o que mais gostou de fazer.

Estará, como sempre, rodeada do marido Filipe, dos filhos, da família, dos amigos e da cadela Cuca, que não a larga. “Estas são conquistas que o cancro me trouxe. Se não fosse a doença havia muita coisa que não faria. O cancro também me trouxe coisas boas. Trouxe-me mais amor, deu-me a conhecer melhor as pessoas e posso dizer que também houve muitas que se afastaram”, sublinha, lamentando que ainda haja tanto preconceito em relação ao cancro, doença que não é contagiosa mas cuja palavra levanta ainda tanto “medo e vergonha”.

É com um sorriso no rosto e com emoção na voz que Catarina Quintas diz que “é possível ser feliz com cancro”. Está “rodeada de amor” e a sua família também, com os amigos e vizinhos a mostrarem, de diversas formas, que estão sempre presentes.

“Quando descobri que tinha cancro pus as coisas numa balança – o que é que eu tenho de mau e o que é que eu tenho de bom. E é muito mais aquilo que eu tenho de bom. A nossa vida é uma corda e ao longo da vida temos problemas. Então eu vou imaginando os nós. Não vale a pena cortarmos os nós porque a vida fica mais curta. Temos que os desatar da melhor maneira. Se entre um nó e o outro pudermos ser felizes melhor”. É esta a filosofia de vida que pretende sempre seguir, desatando nós e olhando para a balança. Quando o cancro surgiu pensou em todas as possibilidades. Surgiram-lhe duas – viver a doença, revoltar-se e chorar (e admite ter passado por essa fase da revolta e da tristeza) ou tentar ser feliz ao máximo.

A decisão não foi muito difícil. “Escolhi ser feliz e fazer tudo para que os meus sejam felizes à minha volta” e isso passa, como diz, por “não deixar de fazer hoje aquilo que podia fazer amanhã”.

“Eu faço hoje. Eu vivo hoje como se amanhã não estivesse cá. Isso reflete-se também na educação dos meninos, no que eu lhe posso dar e transmitir. Tenho tido muitas conversas com eles, mais com o Martim porque é mais crescido, para ele aproveitar a vida, com cautela, mas para não deixar de fazer”, sublinha.

O Martim tinha 10 anos e a Beatriz cinco quando a doença surgiu pela primeira vez. Habituaram-se a viver com o cancro na família e são ambos protetores, apesar das personalidades diferentes. A mãe destaca o cuidado, proteção e meiguice do mais velho e ainda não consegue perceber se eles têm ou não “grande noção” do que representa o cancro.

Também não pensa muito nisso. Está mais concentrada em viver cada momento e em proporcionar-lhes um crescimento feliz. O Martim começou a sair à noite aos 15 anos. Ouviu críticas mas ninguém melhor do que os pais para decidirem o que é certo. “Ele tem que viver as coisas na hora certa. Não sabemos se amanhã está cá e eu, enquanto puder, quero oferecer-lhe essas coisas”, conta, realçando que “tem corrido bem” e que, de cada vez que o vai levar a algum lado, passa o caminho todo a conversar com ele, a mostrar “o que é certo e errado, o que deve ou não fazer”. “Sinceramente acho que tenho feito um bom trabalho”, frisa.

Catarina Quintas quer, acima de tudo “criar memórias” e sabe que o está a fazer. “Ninguém sabe quando é o fim – estejamos ou não doentes – por isso temos que criar memórias, proporcionar coisas boas para que no futuro alguma coisa lá fique. Não quero deixar nada por fazer. Quero fazer tudo aquilo que tenho direito. Quero mostrar a todos que é mesmo possível viver feliz com cancro”, sublinha, orgulhosa da família que está a construir juntamente com o marido, “um ser muito especial” que sempre a respeitou e apoiou em todas as fases da doença, adaptando-se às suas necessidades e respondendo com amor a cada nova surpresa (mesmo que menos boa) que a vida lhes foi colocando no percurso que estão a trilhar juntos.

Para além do marido e dos filhos, Catarina Quintas tem a ajuda especial da irmã que a ajuda em tudo e está sempre disponível. Há outra companhia permanente, a Cuca, a cadela que chegou ao lar há três anos e que a consegue “ler” como ninguém. “É a mim que tem mais respeito mas acho que é a mim que também tem mais amor”, diz, a sorrir. Agora que está mais debilitada fisicamente, tem na cadela uma companhia permanente. “Ela pressente. Ela sabe quando estou mais frágil. Deito-me e ela vem logo para junto de mim, lambe-me e não me deixa enquanto eu não me levantar, mesmo que apareça alguém na rua. Nas alturas em que fico mais enjoada e vomito, ela fica numa preocupação enorme. Sabe que alguma coisa não está bem e nunca me deixa sozinha”, conta.

Catarina Quintas diz que só pode estar orgulhosa, sobretudo da forma como os quatro – casal e filhos – estão unidos. Apesar de ter “consciência de que se um deles sair há-de ficar difícil”, sabe que os filhos “ficam bem entregues”. “É isso que me deixa sossegada. Sinto-me em paz apesar da doença. Já senti muitas coisas, revolta, tristeza… agora estou serena”.

E é serena que se prepara para nova luta. Sabe que se não reagir da forma esperada ao novo tratamento tem muitos mais para experimentar. Essa é mais “uma coisa boa do cancro da mama”, como lhe explicou a médica.

É também com esse espírito que “vai continuar na luta, sempre a olhar para a balança”, porque tem “mais coisas boas do que más” e as boas tem que “as viver todas”. É essa mensagem que deixa também a quem, como ela, luta contra o cancro, para que “nunca desistam, para que não se deixem abater pela doença, para que pensem sempre com fé e para que acreditem sempre que vai correr tudo bem. Porque vai!”.

Veja o vídeo do direto NDC:

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