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Coimbra

Coimbra de pedra morena com João de Ruão na tumba de granito

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Ontem, dia de São João, no exterior da Sé Velha de Coimbra, ao rever um pormenor da Porta Especiosa, uma imagem em pedra de Ançã de João Baptista – o mesmo que tem direito a folguedos e manjericos no Porto, mas também em Figueiró dos Vinhos, Lousã e Figueira da Foz, só para falar aqui à volta – lembrei-me de outro João, Ruão e de origem francesa.

O escultor e arquiteto João de Ruão (1500-1580), cuja oficina terá funcionado algures entre as míticas Escadas do Quebra-Costas e a Torre de Anto, na Alta de Coimbra, produziu uma importante obra em calcário durante mais de 50 anos, no século XVI.

A pedra de Ançã, algo macia, foi a sua matéria-prima de eleição.

Pela relativa facilidade em ser trabalhada e pela proximidade das famosas pedreiras de Ançã, cujas crateras abandonadas ainda hoje são visíveis nesta freguesia histórica do concelho de Cantanhede, terra natal de intelectuais do século XX como Jaime Cortesão e Augusto Abelaira.

Enquanto estudante da Faculdade de Direito e membro da República dos Kágados, primeiro, depois já a exercer a profissão de jornalista, vivi cerca de sete anos na Alta de Coimbra.

Leve e ligeiro como os pombos que esvoaçavam no largo da Sé Velha, sempre que ia à Baixa, subia e descia o Quebra-Costas sempre a correr.

Estava habituado, mas também nesses tempos era outra a agilidade cá do rapaz, então com 20 e poucos anos.

Diziam doutores e futricas que quem não desse uma malhão nessas escadas, à ilharga da casa onde tinha morado um tal Artur Paredes, cantado por José Régio e pai do virtuoso guitarrista Carlos Paredes, nunca acabaria o curso, qualquer que ele fosse, na Universidade de Coimbra.

Havia realmente uma grande probabilidade, especialmente em dias de chuva, ainda por cima com a capa encharcada em água (ou vinho!) a atrapalhar a marcha, de um universitário assíduo às aulas, homem ou mulher, ali cair pelo menos uma vez na vida, durante uma licenciatura de quatro, cinco ou seis anos.

Naturalmente, as escadas, muito íngremes, eram em calcário, a rocha predominante na região, desde logo a extraída das pedreiras de Ançã, um sítio estreitamente associado ao nome e à suprema criatividade de João de Ruão e seus discípulos.

Se fosse em Viseu, Guarda ou Castelo Branco, já provavelmente os degraus seriam em granito, o material básico dos principais monumentos, igrejas e obras públicas naquelas cidades do interior.

No Quebra-Costas, por serem de calcário, depressa ficavam gastos e escorregadios, com um maior risco de queda para os seus utilizadores.

Pela mesma razão, para evitar acidentes rodoviários, não se recomenda – ou está mesmo proibida – a inclusão de granulados de calcário no tapete betuminoso que as empresas aplicam nas estradas.

O granito, sendo muito duro, tem um desgaste lento e garante maior segurança, desde logo em pisos sujeitos a utilização intensa, como acontece com as escadas que ligam a Baixa à Alta de Coimbra, através do Arco de Almedina.

Terá sido essa a motivação da Câmara Municipal quando decidiu substituir os degraus de uma rocha autóctone, pelo menos prima da pedra de Ançã, por cantaria de granito?

Num dos mandatos de Carlos Encarnação, do PSD, na presidência da Câmara de Coimbra, nos primeiros anos deste século, muitas rotundas da cidade foram refeitas com granito e houve polémica.

Numa reunião do executivo, o vereador Luís Vilar, do PS, atirou-se a Encarnação, dando um rotundo não à aplicação da rocha plutónica, designadamente em rotundas que o seu camarada Manuel Machado mandou fazer nos primeiros anos da sua liderança no município, o que lhe valeu o epíteto simpático de “Manuel Rotundas”, a partir de 1989.

João de Ruão, mas também o seu compatriota Nicolau Chanterenne, ambos perpetuados na toponímia da urbe mondeguina, não seria o mestre reconhecido que é ainda hoje se não assentasse arraiais em Coimbra, há 500 anos, e se a pedra de Ançã não abundasse a poucos quilómetros de distância.

Contudo, com esta verdade de La Palice (Jacques de La Palice, também ele francês e contemporâneo do criador da coimbrã Porta Especiosa), não caem na lama os parentes do mestre Jean de Rouen.

É certo que em Castelo Branco, por exemplo, onde é o granito que mais ordena, esta rocha assume um tom moreno no célebre hino albicastrense:

“Eu nasci na Beira, sou homem pequeno

Sou como o granito bem rijo e moreno!”

De igual modo, há um fado de Coimbra que concede a mesma tonalidade ao calcário que guindou João de Ruão aos altares do Renascimento português:

“Igreja de Santa Cruz

Feita de pedra morena

Dentro de ti vão rezar

Dois olhos que me dão pena”.

Afinal, em que ficamos?

Aqui entre nós: não lembraria ao diabo meter granito numa área da cidade classificada como Património da Humanidade e cujos monumentos são todos em pedra morena da região.

Na tumba, João de Ruão não terá descanso.

 

Opinião de Casimiro Soares Simões

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