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Chamam-lhe Vinho dos Mortos… e a história é inacreditável

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 41 minutos atrás em 02-01-2026

Imagem: DR

Se nunca ouviu falar do vinho dos mortos em Boticas, está a perder uma curiosidade imperdível do país… Eis a sua história!

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O Vinho dos Mortos em Boticas é uma bebida que tem um nome algo macabro. Contudo, antes de explorarmos essa curiosidade, convém apresentar Boticas. Esta vila serrana pacata encontra-se presente no nordeste de Portugal, mais precisamente na agreste Serra de Barroso, em Terras do Barroso.

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Esta região é classificada pela Organização das Nações Unidas como Património Agrícola Mundial para a Alimentação e a Agricultura (FAO – Food and Agriculture Organization). A riqueza histórica desta vila é inegável. Isso torna-a num destino que encanta, pela paisagem serrana, pelo património histórico, pela cultura e tradição, pela gastronomia e pela bebida.

O vinho dos mortos ganhou vida nesta terra especial. Se nunca ouviu falar do vinho dos mortos em Boticas, está a perder uma curiosidade imperdível do seu país… Eis a sua história!

O vinho de Trás-os-Montes, no geral, já por si, apresenta as suas particularidades. Esta região vitivinícola encontra-se presente a nordeste de Portugal continental. O território local revela-se desafiante. Existe uma altitude elevada e os solos são graníticos e pouco produtivos.

Além disso, as estações são marcadas por condições extremas. Enquanto os verões se apresentam longos e escaldantes, os invernos são rigorosos e caracterizam-se como prolongados e gélidos. Portanto, só por aqui, encontram-se todas as condições para se criar um vinho singular…

O Vinho dos Mortos tem uma longa história, com mais de dois séculos de existência. Segundo a lenda, a sua origem remonta ao tempo das Invasões Francesas. Portanto, foi no início do século XIX que o Vinho dos Mortos ganhou vida…

Este vinho regional transmontano surgiu em Boticas. O néctar aqui apresentado transporta consigo uma herança pesada, com mais de 200 anos de história. Esta bebida espelha o espírito indomável de um povo resiliente que sobrevive a invasores com audácia e brilhantismo. O Vinho dos Mortos em Boticas ressuscita das profundezas da terra para continuar a revelar a alegria das suas gentes.

Foi no contexto das Invasões Francesas a Portugal que o vinho surgiu. Na época, muitas aldeias e vilas portuguesas tentavam esconder os bens mais preciosos dos soldados franceses. Queriam proteger o que poderia ser perdido com os saques dos invasores.

Ora, foi perante este cenário infernal que o povo da região de Boticas procedeu da mesma forma. Escondeu o que conseguiu, dando prioridade ao que tinha de maior valor. Entre os pertences escondidos estava o vinho, a colheita de 1808. A bebida foi enterrada no chão das adegas, ficando escondido por baixo das pipas e dos lagares.

O povo local tinha medo que lhes pilhassem o doce néctar. Posteriormente, quando os franceses já estavam longe, conseguiram recuperar os bens, que se encontravam escondidos. Após os combates terem terminado, os vinhos foram desenterrados.

Nesse momento, houve uma agradável surpresa. Ora, foi nessa altura que descobriram que o vinho que tinha sido escondido apresentava agora propriedades distintas. Tinha adquirido qualidades inusitadas.

O nome dado à bebida foi Vinho dos Mortos, precisamente por ter sido enterrado. O Vinho dos Mortos foi enterrado, o que fez com que apresentasse qualidades distintas. Nesse estágio, a conservação foi realizada em condições incomuns. A bebida beneficiou de uma temperatura constante e da ausência de luz.

Durante o período que ficou enterrado, o néctar melhorou as suas propriedades devido ao processo de fermentação natural que sofreu, ficando um vinho com teor alcoólico reduzido e surgindo subtilmente gasificado.

Este vinho singular tem certificação de Vinho Regional Transmontano. O Vinho dos Mortos só pode ser produzido com uvas provenientes de vinhas presentes nas encostas da vila de Boticas. Como se teve a oportunidade de indicar, as terras resta região apresentam condições de clima e solo especiais.

Na composição do Vinho dos Mortos, a referência são as castas autóctones portuguesas, nomeadamente Touriga Nacional, Touriga Franca, Bastardo e Tinta Roriz. Geralmente, para a produção deste vinho, são usadas maioritariamente uvas de vinhas velhas. A sua replantação encontra-se limitada às necessidades de reposição.

O Vinho dos Mortos reúne todas as condições para se distinguir dos demais. Não apenas pelo nome insólito, mas porque este vinho de transição é diferente, sendo verdadeiramente um néctar único. Esta bebida não só apresenta um teor alcoólico baixo, como revela uma  frescura pronunciada.

O aroma do Vinho dos Mortos é fresco. Nele destaca-se o perfume a frutos vermelhos. Na boca, a bebida apresenta um paladar leve, destacando-se pela acidez pronunciada e pela muita frescura. O Vinho dos Mortos revela ainda breves nuances de mel e uma gaseificação agradável e subtil.

Desta forma, este doce néctar apresenta características únicas, revelando um caráter alegre e surpreendente que retrata o povo local. Passou a designar-se “Vinho dos Mortos” por ter sido “enterrado” e, desde então, a técnica, descoberta ocasionalmente, passou a ser usada estrategicamente para melhor conservar a bebida e otimizar a sua qualidade.

Assim, este néctar revela-se um símbolo de uma guerra de subsistência. A bebida espelha o povo local que encontrou sagacidade para preservar o seu património, mantendo o Vinho dos Mortos (e outros bens) longe das mãos dos soldados franceses.

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