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Coimbra

Carnaval da Mealhada: Câmara corta. Associação protesta.

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Uma semana depois da Câmara Municipal da Mealhada (CMM) ter aprovado a versão final do protocolo de apoio a celebrar entre Município e a associação organizadora dos festejos do Carnaval Luso-Brasileiro da Bairrada, Associação do Carnaval da Bairrada (ACB) emite um comunicado assinado por Ana Filipa Varela Pereira, Presidente da Direcção da ACB, para manifestar a sua discordância em relação à redução do valor do donativo concedido pela CMM.

carnaval

A Câmara Municipal da Mealhada – segundo informação veiculada pelos órgãos de comunicação social – decidiu no dia 7 de Dezembro de 2015 aprovar – com a abstenção de dois vereadores – um projecto de protocolo, que pretenderá assinar com a ACB, sobre o apoio, nomeadamente financeiro, mas não só, a prestar pelo Município à edição de 2016 do Carnaval Luso-Brasileiro da Bairrada, partindo do principio de que o evento é uma mais-valia para o desenvolvimento dos munícipes do concelho da Mealhada.

Face ao ano anterior, o donativo financeiro terá uma redução de 28,57%, fixando-se nos 60 mil euros – nos últimos anos foi de 84 mil euros, depois de já ter sido de 100 mil, 120 mil e até 150 mil euros.

A justificação divulgada para este corte será a de que a edição de 2015 do Carnaval da Bairrada deu um resultado líquido positivo de cerca de 40 mil euros e que, perante organismos como o Tribunal de Contas, a Câmara da Mealhada não teria capacidade para justificar a manutenção do donativo a uma associação sem fins lucrativos para um “evento lucrativo”.

Com todo o respeito, interessará esclarecer o seguinte: Na edição de 2015, imprimindo um estilo de rigor, de exigência, de intransigência relativamente a questões chave da organização do evento, e acima de tudo de mudança de estratégia face a aspectos essenciais – apoiados pelas boas condições climatéricas – a ACB conseguiu ter um sucesso de bilheteira e conseguir garantir um saldo positivo de cerca de 40.000€.

Esse valor positivo – que não é inédito, longe disso, podendo até considerar-se periódico – permitiu renovar equipamentos, fazer aquisições que há muito iam sendo adiadas, no sentido de a ACB conseguir um dia ter maior autonomia e sustentabilidade face ao financiamento público. Diz a experiência que 40 mil euros, tendo sido o resultado líquido de um ano bom, pode não ser o suficiente para cobrir os maus resultados de um ano mau – como é natural que haja em fevereiro.

O gesto do Município perante uma gestão cuidada e criteriosa não nos parece que deva ser a da censura pela afirmação de que uma associação sem fins lucrativos não deve ter resultados positivos.

Dito de uma forma mais prosaica, mas perfeitamente justificável, a ACB é penalizada por ter sido transparente e séria e ter feito uma gestão correta e cuidada dos fundos públicos. A autarquia dá um sinal de que seria preferível não ter apresentado resultados e divulgar a informação – mesmo que falsa – de que o Carnaval deu prejuízo ou apenas o suficiente para ‘pagar as despesas’. Persistem ainda outras dúvidas, que a todos devem assolar: Será a ACB a única associação do concelho da Mealhada a apresentar resultados líquidos positivos? Será que mais nenhuma colectividade do concelho o conseguiu? Certo é que, pelo que é público, a Câmara não reduziu a mais nenhuma associação qualquer espécie de apoio.

Será que a Câmara vai também reduzir o orçamento de eventos que ela própria organiza e promove, dentro do mesmo princípio? O Carnaval Luso-Brasileiro da Bairrada, que é o resultado de uma tradição centenária na Mealhada, realiza-se há quase quatro décadas ininterruptamente. Com mais dinheiro ou com menos dinheiro o Carnaval é uma manifestação popular, cultural e enraizada que se realiza e realizará não por vontade desta ou daquela pessoa ou entidade, mas por vontade da força colectiva da comunidade. E acontecerá sempre independentemente das conjunturas sociais, nacionais ou locais.

O que distinguirá um Carnaval com forte investimento de um Carnaval com investimento insuficiente será, naturalmente, a projecção que terá em quem nos visita, em quem se sente estimulado (ou não) a dar boa informação aos outros do que viu e do que quererá (ou não) voltar a experienciar.

O senhor presidente da Câmara Municipal da Mealhada tem declarado, por várias vezes, que o Carnaval Luso-brasileiro é um evento importante para a afirmação como destino turístico que o concelho da Mealhada quer alcançar. Trata-se, efectivamente, de um evento que abre telejornais, que consegue directos nas televisões de canal aberto em horário nobre.

Um evento que durante todo o ano permite que grupos de samba possam correr o país divulgando o concelho da Mealhada. Sendo um evento estratégico para o concelho, devia merecer, por parte do Município, o tratamento adequado a esse estatuto e a esse serviço que presta à estratégia global do Município. 

Em conclusão, o que resulta óbvio da nossa análise – que nos parece difícil de refutar – é quem perde é o concelho da Mealhada que dará a quem nos visita uma imagem muito aquém daquilo que poderia dar, que já deu noutros anos e que, por vontade da ACB daria sempre mais e melhor.

Em Maio de 2014, quando a equipa que agora dirige os destinos na direcção da ACB se apresentou com uma candidatura aos órgãos sociais desta colectividade, apresentou um projecto escrito – pela primeira vez na história da associação e inaudita na maior parte das associações da região – no qual desenhou um rumo e uma estratégia para o evento. Nesse rumo estava, naturalmente, uma necessária vertente económica que não passava pelo aumento do apoio municipal ao Carnaval, nem sequer um regresso a valores de outrora, na casa dos 100, 120 ou 150 mil euros, mas tão só a manutenção do valor protocolado nos últimos anos, o de 84.000€.

Este projecto foi submetido aos sócios, numa eleição inédita e muito mais concorrida do que é natural no associativismo concelhio e, perante uma alternativa, foi escolhido e sufragado pelos sócios.

Estamos a 50 dias da data prevista para os inícios dos festejos carnavalescos na Mealhada. Estamos já há muitos meses a trabalhar no sentido de termos um evento que dignifique a Mealhada e a sua população. Muito do trabalho está praticamente pronto, muito do investimento está comprometido, quase tudo o que devia estar comprado, já está comprado.

Saber desta decisão da Câmara nesta altura, a 50 dias do evento, é algo que nenhum dos elementos da direcção da ACB merecia nesta altura, e muito menos merecia a própria associação, com quarenta anos de história e um serviço de voluntariado e promoção do concelho e das suas gentes.

Hoje será apenas possível cortar – porque não orçamentaremos um Carnaval para ficar a dever dinheiro às empresas locais – naquilo que é possível. 

E hoje só é possível cortar em publicidade, em promoção do evento. Infelizmente, é exactamente isso que mais retorno poderia trazer aos mealhadenses.

Lamentavelmente, consideramos que o apoio municipal de 60.000€ nos afasta do projecto apresentado e não permite a realização de um evento que dignifique o concelho da Mealhada.

Talvez o consiga um dia, se seguisse o rumo definido no ano passado e com resultados visíveis. Uma política de apoio errática só afastará a ACB desse caminho e só contribuirá para que seja cada vez mais dependente no futuro.

E acreditamos que não é isso que o Município pretende. De qualquer modo, a certeza que pode e deve ficar é que a ACB organizará o Carnaval possível. O Carnaval que a Câmara Municipal entende que a Mealhada merece. 

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