Portugal

Atum com milhões de anos dá lição de história marítima a Portugal

Notícias de Coimbra | 2 horas atrás em 12-01-2026

Uma equipa de paleontólogos identificou o mais antigo atum alguma vez registado em Portugal: um fóssil com cerca de 20 milhões de anos, proveniente dos depósitos miocénicos da região da Arrábida, Setúbal. O achado representa a primeira ocorrência confirmada de atum no registo fóssil português, revelando que os antepassados dos atuns modernos já nadavam nas águas atlânticas que banhavam a região durante o Miocénico.

PUBLICIDADE

publicidade

Segundo os autores, esta descoberta preenche uma lacuna no registo fóssil português e alinha Portugal com outros importantes sítios miocénicos da Europa, América do Norte e América do Sul que preservam fósseis de atuns.

PUBLICIDADE

Para Pedro Marrecas, coautor que preparou e estudou o espécime, a descoberta ocasional deste fóssil por José Costa e Hugo Silva, nas suas saídas de campo entre o Cabo Espichel e a Praia do Meco, teve também um lado pessoal: “Quando vi a vértebra pela primeira vez, percebi imediatamente que estávamos perante algo extraordinário. A robustez e o tamanho do osso deixavam claro que se tratava de um gigante dos mares.” O estudo revela que o animal teria mais de 2,8 metros de comprimento, comparável aos grandes atunsrabilho que, séculos mais tarde, se tornariam parte da identidade cultural, astronómica e económica portuguesa.

A descoberta assume relevância particular porque o atum tem um papel histórico profundamente enraizado em Portugal: Desde o período romano que existem registos da pesca e salga de atum no sul do país. A pesca tradicional do atum com armações marcou durante séculos a vida das comunidades algarvias. No século XX, Portugal foi um dos maiores produtores de conserva de atum na Europa. Atualmente, o atum continua a ser um recurso económico e gastronómico de grande valor para o país, com forte projeção internacional.

O geólogo e paleontólogo Carlos Neto de Carvalho, Coordenador Científico do Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO e coordenador deste estudo, salienta a importância científica e simbólica do achado “Este fóssil mostra que a presença de grandes atuns nas nossas águas é uma história com 20 milhões de anos. A relação de Portugal com o atum é antiga, mas agora sabemos que é pré-histórica.” A identificação de um atum fóssil no território nacional demonstra que esta ligação entre Portugal e o atum tem raízes muito mais antigas do que a história humana, recuando até aos primórdios da evolução dos
ecossistemas modernos do Atlântico Nordeste.

Até hoje, o registo fóssil português de peixes pelágicos — especialmente tunídeos — era extremamente escasso. O fóssil encontrado confirma a presença de grandes predadores oceânicos no Miocénico português, contribui para reconstruir a paleogeografia atlântica do Neogénico, e cria uma ligação inédita entre o património natural profundo e a herança cultural do país. Silvério Figueiredo, especialista em vertebrados, realça a importância científica e patrimonial “Este fóssil mostra que os ecossistemas marinhos do Miocénico eram muito mais ricos e complexos do que imaginávamos. É um contributo fundamental para reconstruirmos a história paleoambiental da região da Arrábida.”

A equipa sublinha que os atuns são espécies migradoras, velozes e endotérmicas, características associadas a ambientes marinhos produtivos e biologicamente complexos. A presença de uma espécie de atum no Miocénico português revela mares quentes a temperados, elevada produtividade costeira e cadeias tróficas com predadores altamente especializados. Estas características ecoam, em certa medida, as condições que durante milénios sustentaram a pesca do atum em Portugal — desde as armações do Algarve até à indústria conserveira que marcou cidades como Olhão, Setúbal, Vila Real de Santo
António e Matosinhos.

A descoberta deste atum miocénico ultrapassa a esfera estritamente científica. O fóssil de Thunnus encontrado na Arrábida torna-se um elo direto entre o património geológico português, que é de grande relevância e nem sempre reconhecido, e a identidade marítima de Portugal. Se, por um lado, representa um avanço notável no conhecimento sobre a evolução destes grandes predadores oceânicos, por outro, devolve ao país uma narrativa que o precede em milhões de anos: a longa convivência entre as águas portuguesas e os atuns.

O fóssil descrito é, ao mesmo tempo, testemunho de um oceano antigo e metáfora viva da relação histórica e económica dos portugueses com o mar. Este mostra que os gigantes marinhos que sustentaram comunidades, alimentaram tradições, inspiraram técnicas de pesca e impulsionaram indústrias inteiras, já faziam parte do ambiente que moldaria, muito mais tarde, a cultura atlântica do país.

Ao unir ciência, memória coletiva e identidade costeira, este fóssil transforma-se num símbolo nacional, um exemplar com milhões de anos que ajuda a contar a história profunda de Portugal enquanto nação de mar.

O exemplar fóssil agora publicado na revista científica portuguesa Comunicações Geológicas do Laboratório Nacional de Energia e Geologia está disponível para investigação e poderá, no futuro, integrar exposições que mostrem ao público a surpreendente continuidade entre o passado geológico profundo e a identidade marítima portuguesa.

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE