Saúde

Atenção máxima faz-nos piscar menos os olhos

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 2 meses atrás em 16-12-2025

Imagem: DR

Piscar os olhos é um gesto automático e essencial para a saúde da visão, mas um novo estudo sugere que este simples movimento está intimamente ligado ao nível de concentração do cérebro. Investigadores no Canadá descobriram que as pessoas tendem a piscar menos quando estão a ouvir alguém falar, sobretudo em ambientes com ruído de fundo.

A investigação foi conduzida por uma equipa da Universidade Concordia, em Montreal, que quis perceber se o piscar de olhos é influenciado por fatores ambientais e de que forma se relaciona com a chamada função executiva do cérebro — responsável pela atenção, tomada de decisões e processamento da informação.

“Queríamos saber se existe um momento estratégico em que as pessoas piscam para não perder o que está a ser dito”, explicou Pénélope Coupal, investigadora em psicologia e autora do estudo.

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Para responder a esta questão, os cientistas realizaram dois experimentos com um total de 49 participantes. Durante os testes, os voluntários ouviram frases lidas em voz alta, enquanto os investigadores registavam a frequência com que piscavam. Ao longo das experiências, foram alteradas duas variáveis principais: os níveis de ruído de fundo e as condições de iluminação.

Os resultados mostraram que, em todos os participantes, o número de piscadelas por minuto diminuiu de forma clara e consistente enquanto as frases estavam a ser lidas, em comparação com os momentos antes e depois. Quando o ruído de fundo aumentava, tornando a audição mais difícil, a frequência de piscadelas diminuía ainda mais.

Curiosamente, as alterações na iluminação não tiveram impacto significativo no piscar de olhos, o que indica que não se trata de fadiga visual, mas sim de esforço cognitivo associado à compreensão da fala.

Apesar de existirem diferenças individuais na frequência média de piscadelas, a tendência geral manteve-se: quanto maior o esforço do cérebro para processar sons, menos as pessoas piscam.

“Não piscamos de forma aleatória”, sublinha Pénélope Coupal. “Piscamos sistematicamente menos quando informações relevantes estão a ser apresentadas.”

Os investigadores acreditam que o cérebro reduz o piscar de olhos para evitar interrupções na entrada de informação sensorial. Segundo Mickael Deroche, investigador em psicologia e engenharia acústica da mesma universidade, piscar os olhos pode estar associado à perda temporária de informação, tanto visual como auditiva.

“É provável que suprimamos o piscar de olhos quando estão a chegar informações importantes”, afirma.

Estudos anteriores já sugeriam que o piscar funciona como uma espécie de pausa mental enquanto o cérebro processa estímulos visuais ou emocionais. Este novo trabalho indica que um mecanismo semelhante poderá existir também no sistema auditivo, ajudando a manter a atenção quando estamos a ouvir.

No futuro, os investigadores acreditam que os padrões de piscar de olhos poderão vir a ser utilizados como uma ferramenta adicional para avaliar a carga cognitiva e o funcionamento do cérebro, ajudando até a identificar sinais precoces de problemas cognitivos.

Ainda assim, os cientistas admitem que são necessários mais dados. “Para sermos totalmente convincentes, precisamos de mapear com precisão quando e como a informação visual e auditiva se perde durante uma piscadela”, conclui Mickael Deroche.

O estudo foi publicado na revista científica Trends in Hearing.