Opinião

As palavras importam, literalmente

OPINIÃO | PEDRO SANTOS | 2 meses atrás em 25-02-2024

Provavelmente, o leitor espera encontrar num espaço de crónica os grandes temas: a política, a economia, o ambiente, eventualmente a religião ou a ética, talvez a cultura, amiúde os problemas e as transformações sociais. Quero garantir-lhe já no início deste texto que não será defraudado, pois pretendo abordar um dos grandes flagelos da Humanidade, algo que há já muitos anos é evidente para todos, que causa danos incomensuráveis, que tem potencial para arruinar amizades e separar famílias, mas que continua a ser silenciado. Falo, evidentemente, das pessoas que usam a expressão ‘literalmente’ em situações figurativas.

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Aparentemente, existem registos da utilização daquela palavra fora do seu sentido original desde há pelo menos quatro séculos, mas há uma razão muito simples para que esse erro me incomode muito mais hoje, do que nessa altura: eu não estava vivo há 400 anos! Por isso, estou literalmente a borrifar-me (como diria um psicopata da língua) para o seu registo histórico!

É como se, de repente, tivéssemos perdido a capacidade de compreender a diferença entre o real e o figurativo. Como se as metáforas, as hipérboles e outras figuras de estilo fossem demasiado complexas para as usarmos. Como se quase, muito ou bastante não fossem ‘intensificadores’ suficientemente claros ou não oferecessem hipóteses de alternância em número suficiente.

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Haverá quem argumente que qualquer língua é um organismo vivo, em constante mutação e que a utilização concreta das palavras lhes muda o seu significado. Tudo isso está certo, mas quem, perante frases como «Estou literalmente a morrer de fome», consegue não sentir que a morte é algo mais suportável do que ter de ouvir tal coisa, provavelmente já está morto por dentro. Acredito profundamente que devemos saber escolher as nossas indignações, mas acho francamente impossível escutar «Ela literalmente partiu-me o coração» sem pensar que houve de certeza boas razões para o fim daquela relação.

Apetece-me muitas vezes citar Nanni Moretti, no seu filme “Palombella Rossa”: As palavras importam! Mas, provavelmente, nunca tanto como quando o flagelo do ‘literalmente’ me deixa figurativamente os nervos em franja. A forma como nos expressamos molda a nossa perceção da realidade, a forma como pensamos e percebemos o mundo. Se isto não é suficiente para não nos conformarmos com a sua má utilização, não sei o que poderá ser.

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P.S. Se, porventura, o caro leitor chegou a este ponto da crónica a pensar que não leu nada sobre os prometidos «grandes temas», apresento as minhas desculpas. Na verdade, tenho várias outras irritações relacionadas com a linguagem (nem me façam falar sobre pessoas que separam o sujeito do predicado com vírgulas…) e outros temas, como circular em contramão nos estacionamentos dos hipermercados, respirar para o pescoço de outras pessoas nas escadas rolantes ou os team buildings – talvez numa próxima oportunidade eu venha a abordá-las e a incendiar o debate. Não literalmente, que não sou nenhum pirómano.

OPINIÃO | PEDRO SANTOS – ESPECIALISTA EM COMUNICAÇÃO

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