Portugal

Às escuras desde janeiro: “Só tenho o Nosso Senhor para me guiar”

Notícias de Coimbra | 26 minutos atrás em 22-02-2026

O projeto Leiria Unida continua no terreno, a bater de porta em porta nas aldeias do concelho de Leiria, levando muito mais do que sacos com arroz, massa e conservas. Leva tempo. Leva escuta. Leva presença.

Na passada sexta-feira, a iniciativa — promovida pela associação Asteriscos em conjunto com os clubes Lobos de Leiria e ADCCMI — chegou a Monte Redondo, depois de uma semana intensa na União de Freguesias das Colmeias e Memória.

Ali, onde o silêncio pesa tanto como os estragos, os voluntários percorrem ruas estreitas sem pressa. “Não é só entregar o kit e ir embora”, explica um dos elementos da equipa. “Às vezes, o que as pessoas mais precisam é que alguém lhes pergunte: ‘Está tudo bem?’”.

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E há quem esteja há dias — ou semanas — à espera dessa pergunta.

Entre as portas que se abriram em Monte Redondo estava a de Vítor Pinto, 79 anos. A casa escapou aos maiores danos, mas a eletricidade continua instável. “Vai e vem… como quer”, conta, resignado.

Desde a noite de 28 de janeiro, Vítor tem contado com uma ajuda improvável: um pequeno crucifixo iluminado a pilhas, a que chama “Nosso Senhor”. É aquela luz ténue que o guia quando a noite cai e a corrente falha.

“Ligo aquilo e pronto… sempre dá para ver qualquer coisa”, diz, apontando para a pequena luz que tem sido companhia constante.

A imagem é simples — quase humilde — mas diz tudo sobre a realidade que ainda se vive em algumas casas: luz incerta, rotinas alteradas, medo de ficar às escuras.

Antes de saírem, os voluntários deixaram-lhe uma lanterna. Um gesto simples, mas que mudou a noite daquele homem.

“Obrigadíssimo”, agradeceu Vítor, com a voz embargada, segurando o novo foco de luz como quem segura uma garantia de tranquilidade.

O Leiria Unida tem distribuído kits de bens essenciais pelas aldeias afetadas, mas quem anda no terreno sabe que a maior carência nem sempre é alimentar.

“Não são só os telhados que precisam de ser reparados”, confidencia uma voluntária. “Há muita solidão, muito medo acumulado.”

Em cada porta, a equipa demora-se. Pergunta se há luz, se há água, se precisam de medicação. Pergunta, sobretudo, como estão.