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Apesar das chamas atingirem esta aldeia de Arganil, continua-se a servir hospitalidade (e grão de bico)
Sobral Gordo, uma aldeia marcada pelos incêndios de agosto de 2025, abriu as portas ao Notícias de Coimbra — e não apenas as portas, mas também a cozinha da dona Helena. Entre obras e cheiro de comida caseira, a hospitalidade falou mais alto.
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“Não olhem para isto, está tudo em obras, mas de vez em quando é preciso fazer obras. O melhor é entrar porque que há grão de bico”, disse Helena ao convidar a equipa a almoçar.
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A refeição preparada por Helena incluiu um tradicional grão guisado com chispe, orelha, rabo de porco e chouriço. Questionada sobre a sua especialidade, a cozinheira respondeu com modéstia: “Não sou muito boa cozinheira. O meu marido era muito mais. Agora sou eu.”
A receita, simples mas saborosa, combina o refogado tradicional, grão de bico cozido e carne cortada em pedaços. Helena destacou o quanto o prato simboliza o calor da casa e da aldeia, mesmo após experiências traumáticas: “A gente saía era a correr para ajudar, onde pudéssemos, com baldes.”
Os incêndios daquele verão deixaram memórias fortes. “A minha filha chegou ao ponto que disse: ‘Eu nunca mais vou ver os meus filhos’, porque só faltava arder as casas. Parecia línguas de fogo a passarem por cima dela e dos outros todos”, recordou Helena.
Recentemente, a visita do Presidente da República a uma aldeia próxima suscitou reflexões sobre atenção institucional: “Foi visita para os olhos verem e nada fazer. A atitude acaba por ser uma promessa e acaba por ser cumprida, mas depois… ele nunca quis saber muito de Sobral Gordo. Vem falar com algumas pessoas, mas sentimos que estamos um pouco abandonados.”
Apesar das adversidades, a hospitalidade e o espírito comunitário continuam vivos: “A minha filha e o meu neto conseguiram passar. Eu não temi muito, mas a situação era difícil. É bom ver que a aldeia se ajuda e se mantém unida.”
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