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O Sexo e a Cidade

APANHA COPOS, O MANIFESTO

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Ser apanha-copos num bar, numa discoteca não é para qualquer um. É preciso fibra. São os últimos da hierarquia destes espaços.

Sabem-no. Reinventam sistematicamente novos métodos de brotar caminho entre a densa massa humana que se encontra na pista de braços apontados ao céu enquanto entoam a todo o pulmão aquilo do “todo el mundo en pastilla en la discoteca”, sabem? Aquela música que ostenta entre refrões umas buzinadelas estranhas que lembram o Intercidades no momento que abandona a estação.

Sabem? Bem, depois, procuram por copos vazios. Eles estão em cantos, em cima de mesas, por baixo de mesas, nas casas de banho, ao lado de sanitas e mesmo dentro delas (isto será mesmo gozar com quem trabalha!). A tarefa passa por encontrá-los e recolhê-los.

É um jogo. O cliente abandona o copo em algum lado e o apanha-copos tem de encontrá-lo. Olha para sítios improváveis e inóspitos do olhar comum, sabendo que a sua posição hierárquica não lhe permite qualquer tipo de manifestação. Engole em seco. Evita disparar impropérios. Guarda a raiva para si. Pensa na mãe, na namorada e no cão. Pensa num estágio profissional no interior alentejano. Aguarda pelas seis ou sete horas. Atura, ainda, empresários de meia-idade que compram garrafas para manter o status da luxuria visível a terceiros. A arrogância deles leva-o ao desespero-mor. Continua à procura de copos. Transporta em cada mão três a quatro de cada vez. Os dedos, divididos no interior dos copos, entram em contacto com a saliva e com o batom da pessoa que anteriormente os usou para beber qualquer coisa. É obrigado a rasgar caminho pela pista novamente para os deixar no sítio indicado. Volta para trás e recomeça tudo de novo.

Depois de ser pisado, empurrado e molhado um sem número de vezes, chega a hora de voltar para casa. “Mor, vou agora embora”, envia à namorada. “Mor, estás acordada?”, insiste. Não obtém resposta. Tenta ligar-lhe. Não atende. Tenta ligar-lhe outra vez. “O número para o qual ligou…”, responde uma voz automática do outro lado. Fim de noite. Vontade de emigrar para o Zimbabué. Vontade de amputar pernas e braços a pessoas aleatórias. Vontade de comer a mãe do “filho da puta que me obrigou a resgatar aquele copo do interior da sanita!”. E bem.

Opinião de Pedro Nuno Marques

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