Educação

 Ansiedade climática em Portugal é baixa entre adultos, mas influencia comportamentos pró-ambientais 

Notícias de Coimbra | 9 minutos atrás em 23-03-2026

Ainda que a maioria dos portugueses reconheça a realidade das alterações climáticas e as suas origens na ação humana, a prevalência dos níveis médios de ansiedade climática entre adultos em Portugal é relativamente baixa. Esta é uma das principais conclusões de um estudo realizado na Universidade de Aveiro (UA) que procurou compreender de que forma a perceção de que as alterações climáticas são uma realidade, isso afeta ou não a saúde mental dos portugueses e leva ou não à adoção de comportamentos pró-ambientais.

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A crise climática constitui um dos desafios globais mais complexos e urgentes da atualidade, com impactos já reconhecidos ao nível ambiental, físico e mental. A ansiedade climática tem vindo a ser identificada como uma das consequências psicológicas associadas às alterações climáticas.

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“A ansiedade climática é uma preocupação crónica com os impactos das alterações climáticas, com o futuro do planeta, de si próprio e das gerações futuras”, explica a autora do estudo, a investigadora Mariana Pinho, do Centro de Estudo do Ambiente e do Mar e do Departamento de Biologia da UA. “No estudo, que contou com a participação de 3300 pessoas, a ansiedade climática foi medida com uma escala validada, que avalia a frequência de sintomas como perturbações cognitivas (por exemplo, dificuldades de concentração ou sono) e dificuldades funcionais associadas a preocupações com o clima”.

De acordo com a investigadora, “no geral, a prevalência desse tipo de ansiedade entre adultos em Portugal é relativamente baixa, havendo evidência noutros estudos de diferenças entre faixas etárias, género, entre outros fatores”.

Mariana Pinho sublinha, contudo, que estes resultados devem ser interpretados com cautela: “Isso não significa que os portugueses não acreditem ou não se preocupem com as alterações climáticas, mas que no geral estas não têm um impacto ao nível do funcionamento cognitivo — como perda de sono ou dificuldades de concentração — nem interferem significativamente com a rotina diária”.

Preocupação existe, mesmo sem ansiedade clínica

“O facto da ansiedade climática se revelar baixa não implica desinteresse ou falta de consciência ambiental”, aponta a investigadora. “O que o estudo nos indica é que, embora a ansiedade climática seja relativamente baixa, a maioria das pessoas reconhece a realidade das alterações climáticas, as suas origens antropogénicas e os seus impactos. Têm, inclusive, uma forte ligação psicológica à natureza, mesmo que isso não se traduza necessariamente em ansiedade clínica ou psicológica intensa”, diz.

Os resultados mostram ainda que idade, nível de escolaridade e rendimento estão negativamente associados à ansiedade climática — ou seja, pessoas mais velhas, com maior nível de educação e rendimentos mais elevados tendem a apresentar níveis mais baixos de ansiedade. Por outro lado, experiências mais diretas com os impactos das alterações climáticas estão relacionadas com níveis mais elevados de ansiedade.

Mais preocupação, mais ação

O estudo demonstra também que a forma como as pessoas percecionam as alterações climáticas pode influenciar os seus comportamentos de conservação ambiental.

“De forma geral, níveis mais elecados de preocupação/ansiedade climática tendem a estar associados com a maior adoção de comportamentos pró-ambientais”, afirma Mariana Pinho. “O estudo encontrou que a forma como as pessoas percebem as alterações climáticas pode influenciar os seus comportamentos de conservação ambiental, com a ansiedade climática a atuar como um dos mecanismos que liga essa perceção às atitudes e ações pró-ambientais”.

Estes resultados ajudam a compreender os mecanismos psicológicos que podem impulsionar práticas mais sustentáveis e reforçam a importância de integrar dimensões emocionais e sociais na definição de políticas ambientais.

Impactos na saúde não devem ser ignorados

Para a investigadora, é essencial reconhecer que as alterações climáticas não afetam apenas o ambiente, mas também a saúde das populações.

“As alterações climáticas estão a afetar não só o ambiente, mas também a nossa saúde física e mental. A ansiedade e o stress associados a estes fenómenos são reais e não devem ser ignorados. Quem sente que esta preocupação está a afetar significativamente o seu bem-estar deve procurar ajuda”, diz.

Mariana Pinho acrescenta ainda que “é igualmente essencial que os profissionais de saúde — não só os psicólogos — saibam identificar e encaminhar situações de stress climático, promovendo a literacia e uma resposta proativa, especialmente em contextos de desastre”.

Compreender o papel das características sociodemográficas e sociopsicológicas na ansiedade climática revela-se, assim, fundamental para o desenvolvimento de políticas e programas ambientais mais inclusivos, capazes de promover mudança social e responder às desigualdades existentes.

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