Coimbra
“Andava a fugir para alimentar animais”. Desafia proibições durante dias de terror em Coimbra
Foram dias de angústia junto ao Rio Mondego. O vento, a chuva e o medo de que o dique da margem esquerda nos Casais do Campo cedesse deixaram a população em sobressalto.
Mas o rebentamento acabaria por acontecer na margem direita, mesmo por baixo da A1, que continua cortada entre Coimbra Sul e Coimbra Norte.
Carlos Ramos, 70 anos, reformado e morador em Casais do Campo, viveu tudo com o coração apertado. Tem um terreno na margem esquerda, onde cria animais, e durante vários dias esteve impedido de lá ir.
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“Um gajo é pobre e tem que andar a tratar dos animais. Não podia deixá-los à fome.”
Com cerca de “20 e tal bichos” — oito porcos, coelhos, galinhas e patos — Carlos não tinha alternativa.
“Ia lá de manhã e à noite. Andava a fugir, conheço ali uns caminhos. A polícia não deixava passar, mas eu responsabilizei-me.”
A zona onde nos encontramos era apontada como a mais frágil. Se o dique da margem esquerda rebentasse, poderia inundar extensas áreas agrícolas. Carlos sabia, no entanto, que o seu terreno estava numa cota mais protegida.
“Mesmo que rebentasse este dique, a água nunca lá ia. Eu sabia disso. Só se fosse mais acima.”
A rotura deu-se na margem direita, poupando-o ao pior. “Fiquei a salvo. Eu e muitos dos meus vizinhos.”
Se as águas não chegaram aos seus terrenos, os ventos deixaram marcas noutras zonas do concelho.
“Voaram chapas, pombais, houve muitos estragos. Aqui para cima escapou-se, mas lá mais abaixo houve prejuízos grandes.”
Num cenário onde o sol volta a brilhar, os diques do Mondego recordam que, por poucos metros, o destino de cada agricultor pode mudar drasticamente.
Entretanto, o Ministério do Ambiente e da Energia informou que a Agência Portuguesa do Ambiente concluiu uma intervenção provisória que permitiu repor a estanquicidade do dique de Casais.
A operação impede agora a passagem de água do leito central do Mondego para os campos adjacentes, possibilitando a drenagem dos terrenos ainda inundados. Trata-se de uma etapa essencial para a futura reparação definitiva do dique, do canal condutor geral e da estrada.