O 2.º Festival Literário de Penacova arrancou com autores, música, debates e aquele discurso bonito sobre a força da palavra. Tudo tranquilo. Tudo cultural. Tudo muito democrático. Até que um livro decidiu aparecer no programa.
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A confusão começou quando foi cancelada a apresentação de “Por Dentro do Chega”, do jornalista Miguel Carvalho. A sessão estava alinhada, integrada no festival, com apresentador definido e tudo preparado para mais um momento literário normalíssimo: um autor, um livro e uma conversa. Mas não.
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Segundo Miguel Carvalho, surge um email da autarquia informando que a sessão ficava sem efeito, por instruções diretas do presidente da Câmara, Álvaro Coimbra. E foi aqui que a literatura ganhou adrenalina.
De repente, um festival criado para promover leitura passou a ter um livro demasiado… lido. Um trabalho de investigação jornalística sobre um partido político revelou-se, ironicamente, político demais para caber num evento literário organizado por uma entidade pública.
A partir daí instalou-se o tal “ruído” de que o presidente falou na apresentação do evento que está a decorrer até dia 7 de março. Ruído esse que não nasceu de um poema mal pontuado, nem de um romance polémico, nasceu de um cancelamento.
O argumento oficial invoca a necessidade de preservar a isenção político-partidária do município. Nada contra. A questão é que o livro não era um comício, não era uma arruada, não era um debate partidário. Era, tecnicamente, um livro. Com páginas. Investigação. E ideias.
Meio século depois do 25 de abril, a discussão sobre um livro de investigação transformou-se no momento mais literário do festival, porque nada é mais narrativo do que um convite feito e que rapidamente desaparece.
O festival continua, os autores continuam, a programação segue. Mas ficou a nota curiosa desta edição: em Penacova, a palavra é celebrada, desde que não traga demasiada realidade para cima do palco.
E assim, sem precisar de ficção, o Festival Literário ganhou o seu enredo mais inesperado.
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