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Coimbra

Alunos de Coimbra conversaram com o escritor Mário Cláudio no Palácio de Belém

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 O escritor Mário Cláudio afirmou na terça-feira que os prémios são uma espécie de “certificado”, mas que não alteram em nada o trabalho do escritor, numa conversa com alunos do secundário, a quem tentou incentivar a escrita e a leitura.

Convidado para participar no programa “Escritores no Palácio de Belém”, durante cerca de uma hora, Mário Cláudio dirigiu-se a 29 alunos entre os 15 e os 16 anos, de uma escola de Coimbra, a quem falou de temas tão diversos como o seu percurso académico e a vivência em Coimbra, o acordo ortográfico ou os prémios literários.

A conversa começou com o escritor a questionar os alunos sobre as suas leituras e hábitos de escrita, constatando que a maioria não lê e pouco conhece dos escritores, e que gasta grande parte do tempo no computador ou telemóvel.

Mário Cláudio foi questionando os alunos quanto às suas áreas de interesse, desde o desporto à arte, passando pelos temas do ‘bullying’ e da eutanásia, sempre na tentativa de os estimular a ler ou a escrever.

Chegado o momento de ser o escritor a responder a perguntas dos estudantes, inevitavelmente foi questionado sobre a forma como encara os prémios, na medida em que é um autor multipremiado, designadamente com o Prémio Pessoa e duas vezes com o Grande Prémio de Romance e Novela da APE.

“Os prémios não alteram nada em relação àquilo que nós estamos a fazer, não é por causa de um prémio que vamos deixar de escrever desta maneira para passar a escrever ou a relacionamo-nos com o mundo de uma maneira diferente daquela como já nos relacionávamos”, respondeu o escritor.

No entanto, reconheceu a importância do prémio enquanto forma de manifestação do gosto dos outros por aquilo que um escritor fez.

“Portanto, valida-nos, é uma espécie de certificado de que aquilo que estamos a fazer presta para alguma coisa, e isso é gratificante, é bom, mas é impensável um escritor ter uma atividade para ganhar prémios”.

Outro momento marcante no encontro, foi quando um aluno perguntou a Mário Cláudio o que faria se fosse ele o Presidente da República, levando o escritor a afirmar que aquilo não era um desafio, mas “quase uma sentença de morte”, e arrancando uma gargalhada da plateia.

Começou por afirmar que não fazia “a mínima ideia”, mas admitiu que tem “um modelo de presidente”, assim como acredita que toda a gente tem “um presidente modelar”.

“Eu tenho que dizer aqui uma coisa com toda a frontalidade: eu não concebo um presidente sem afeto, e isso já diz tudo”, afirmou.

Mário Cláudio recordou depois o “grande escritor chamado Teixeira Gomes”, que passou pela presidência da República e pelo Palácio de Belém, “que era um homem com grandes emoções, com grandes afetos e que fez da presidência um lugar de manifestação, de exteriorização, desse afeto”.

“Um presidente não pode ser, de forma nenhuma, um espantalho, uma figura sem sensibilidade, não me revejo nesses presidentes”, sublinhou.

Na conversa com os alunos discorreu sobre a sua vivência em Coimbra e sobre o percurso académico, recordando que passou o curso de Direito a ler livros, graças, sobretudo a uma “disciplina horrível”, o Direito Corporativo, “o mais enfadonha que se pode imaginar”.

“Só havia uma maneira de reagir contra aquelas aulas que para mim eram insuportáveis: era ler livros. E eu passava o tempo com um livrinho aberto em cima dos joelhos durante as aulas, a ler, e líamos as grandes figuras daquela altura – Sartre, Hemingway, Camus – e dava-nos um certo gozo ler contra, líamos contra a aula. Aquilo era um remédio que nos aplicávamos, para não termos que atravessar aquele universo”.

Mas nem só de boas recordações foi feito o percurso académico de Mário Cláudio, e o autor recorda a “coisa horrorosa, e que continua a ser medonha, que era a praxe coimbrã”, uma manifestação que – confessa – o envergonhava.

“Não tenhamos ilusões, era igual ou pior à forma como se tratam hoje [os caloiros]. Estas coisas continuam e é preciso que acabem urgentemente. São resíduos de barbárie que devem ser ultrapassados”, defendeu.

O Acordo Ortográfico foi outro dos temas abordados, uma vez que o escritor usa a forma antiga, o que explicou com um hábito que não tem vontade de mudar e com o facto de discordar de muitas opções do novo acordo.

Além disso, considera que há uma liberdade criativa do escritor que lhe dá “o direito de ter o direito” de escrever como quer.

“Não me quero comparar, em termos de qualidade e grandeza, mas houve escritores portugueses que achavam que eles próprios tinham direito a escrever como quisessem: um deles foi Jorge de Sena, que escreveu sempre com uma ortografia que era só dele, ao atropelo da ortografia dominante na altura, e outra foi a Sophia de Mello Breyner, que escreveu sempre a palavra ‘dança’ com ‘s’, à francesa, e era implacável, não queria sair dali, queria escrever daquela maneira e fê-lo”.

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