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Acidente em Espanha: Uma catástrofe” feita de “ferro por todo o lado” e “pessoas a gritar”

Notícias de Coimbra com Lusa | 12 minutos atrás em 19-01-2026

Imagem: x @vitoquiles

Quando às 21:30 de domingo Javier Mesones chegou ao apeadeiro de Adamuz, em Córdova, onde dois comboios de alta velocidade tinham chocado e descarrilado, viu “uma catástrofe” feita de “ferro por todo o lado” e “pessoas a gritar”.

“Fui com um amigo numa moto 4×4 para dar uma ajuda. Retirámos 15 feridos das vias e do aterro, que transportámos numa plataforma na parte da frente da 4×4 até à zona onde estavam as ambulâncias”, contou hoje à agência Lusa, na praça central de Adamuz.

Javier Mesones, pintor da construção civil de 36 anos, nasceu e cresceu em Adamuz, uma localidade de pouco mais de 4.000 habitantes nos arredores de Córdova, na Andaluzia, sul de Espanha, que se transformou no domingo à noite no epicentro daquele que é já considerado o maior acidente com comboios de alta velocidade da história do país.

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Com a primeira linha inaugurada em 1992, Espanha é hoje o segundo país do mundo, a seguir à China, com a maior rede ferroviária de alta velocidade. No acidente de Adamuz, estão confirmadas 39 mortes, um número que as autoridades dizem poder ainda aumentar.

Adamuz “é um lugar muito tranquilo” e nos seus 36 anos de vida, Javier Mesones, nascido e criado na localidade, “nunca tinha visto nada assim”: dois comboios com vagões tombados na linha e duas composições no meio de um aterro ao lado das vias.

“Havia ferro por todo lado. Só via ferro. Vi cadáveres, ouviam-se as sirenes, fazia muitíssimo frio, as pessoas a gritar. Havia também muita gente a trabalhar, muitos bombeiros, polícias, guardas civis”, descreveu.

Com a moto 4×4, Javier e o amigo conseguiram percorrer caminhos “do campo” que quem cresceu em Amaduz conhece e assim chegar ao local do acidente, conhecido como “apeadeiro de Amaduz”, onde está instalada uma “subestação” da empresa de gestão das infraestruturas ferroviárias espanholas (Adif), de difícil acesso, em que os carris do comboio cruzam a base de um pequeno monte que foi cortado para a alta velocidade passar.

O acidente deu-se perto das 19:45 e pouco depois começaram a ouvir-se sirenes na povoação e os grupos de WhatsApp (plataforma de mensagens) começaram a partilhar informação. Foi aí que “o povo se mobilizou para ajudar”, contou Javier, que disse que se abriram de imediato espaços para onde a população levou mantas, bebidas e alimentos.

No lar da terceira idade da localidade, na praça onde Javier falou com a Lusa, foi instalado o primeiro espaço para acolher, durante a noite e madrugada, familiares de vítimas e passageiros dos comboios acidentados.

Rosa Reina, da Guarda Civil espanhola, explicou aos jornalistas no local, ao final da manhã, que estes serviços foram levados para outros locais fora de Amaduz e que foram criados cinco pontos, em espaços desta força de segurança, para dar informações a familiares e amigos de vítimas, assim como receber amostras de ADN e outros dados que possam ajudar a identificar cadáveres e feridos.

Esses cinco pontos estão em Córdova, Sevilha e nas três cidades de origem e destino dos comboios – Málaga, Huelva e Madrid.

A poucos quilómetros do centro de Amaduz, Agustín Pérez, de 44 anos, tem visão privilegiada para o local do acidente, uma reta de centenas de metros.

Desde o topo de um dos lados do pequeno monte cortado para deixar passar a linha do comboio, vê-se bem, lá em baixo, o apeadeiro, dezenas de membros das forças de segurança e das equipas de investigação, assim como um comboio vermelho, da empresa privada Iryo, de seis carruagens, parcialmente descarrilado e tombado. A alguns metros de distância, estão carruagens descarriladas de outro comboio, da empresa pública Renfe.

Não são visíveis daquele ponto de observação as outras duas carruagens do comboio da Renfe, que saltaram dos carris depois do choque com as composições da Iryo caídas na via.

Segundo Agustín Pérez, “são restos de carruagens”, atiradas para um aterro.

Agustín Pérez, que tem uma empresa de turismo de natureza em Amaduz, está neste local, uma propriedade privada de agropecuária e caça, desde as 21:30 de domingo, quando as autoridades pediram ao dono para permitir o acesso ao local do acidente através destes terrenos e este lhe pediu ajuda.

“Rompemos a vedação e acederam por aqui, encosta abaixo, equipas de saúde e socorro, que levavam medicamentos, mantas e outros equipamentos”, explicou Agustín à Lusa.

O acesso à zona do apeadeiro de Amaduz faz-se por “um único caminho”, que impedia a entrada e saída de todas as equipas e das ambulâncias, em simultâneo. Ele próprio desceu e subiu várias vezes transportando o que era necessário até à linha do comboio, iluminando o percurso ou mostrando o caminho.

“O que mais me impressionou foram os gritos, fazia estremecer ouvir. Levei mantas e outras coisas, mas não me senti com forças para me aproximar das pessoas que iam nos comboios”, confessou, antes de voltar a dizer duas frases que repetiu constantemente: “Parecia um filme” e “a realidade consegue mesmo superar a ficção”.

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