Saúde

“A única saída é deixá-lo no hospital”. Famílias têm que fazer “escolhas impossíveis”

Notícias de Coimbra | 3 semanas atrás em 19-06-2024

O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) afirmou hoje que as famílias têm que “fazer escolhas impossíveis” quando têm um familiar internado inapropriadamente, acabando por vezes por optar pela “única saída” que é deixá-lo no hospital.

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“Isto é uma situação que nos angustia tremendamente”, disse Xavier Barreto na comissão parlamentar de Saúde, onde foi ouvido esta manhã sobre o 8.º Barómetro de Internamentos Sociais, a requerimento do PSD.

Xavier Barreto respondia a questões levantadas pelo deputado do Iniciativa Liberal Mário Amorim Lopes sobre o abandono de doentes nos hospitais pelas famílias.

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“Existem situações de abandono e naturalmente têm que ser endereçadas, mas nós recusamos desde o início esta ideia de que isto [internamentos sociais] se deve essencialmente a um desinvestimento das famílias nos seus familiares”, defendeu.

Xavier Barreto disse que não é isso que os profissionais vêm no dia-a-dia, mas sim “uma angústia tremenda” das famílias que queriam ter condições para levar o seu familiar para casa e não conseguem.

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“Quase sempre o quadro é o mesmo. São pessoas idosas (…) muitas vezes com problemas de rendimentos e as famílias têm que fazer escolhas impossíveis”, lamentou.

Segundo o presidente da APAH, há pessoas que têm que decidir se deixam de trabalhar e ficam sem dinheiro para pagar a renda e para tratar dos seus filhos ou acolhem o pai ou a mãe em casa.

Também tentam a reposta “mais difícil” que é institucionalizar o doente e como não conseguem “optam pela única saída que tem que é deixar a pessoa no hospital”, ilustrou.

Xavier Barreto alertou também para o problema dos cuidadores informais, que se estima serem mais de um milhão em Portugal, mas que apenas cerca de 14.000 pessoas têm esse estatuto reconhecido e, destes, menos de metade recebe apoio financeiro”, cerca de 350 euros por mês, o que considerou ser “absolutamente insuficiente”.

Segundo o barómetro, o Serviço Nacional de Saúde tinha, em 20 de março, 2.164 camas ocupadas com internamentos sociais, mais 11% face ao mesmo período de 2023, com um custo de mais de 68 milhões de euros para o Estado.

Para Xavier Barreto, são números “muito preocupantes” que se devem à falta de “uma melhor resposta noutro nível de cuidados”, nomeadamente em estruturas residenciais para idosos (ERPI) e na Rede Nacional de Cuidados Continuados (RNCCI).

O responsável salientou que esta situação tem “um impacto enorme” nos hospitais, fazendo aumentar as listas de espera.

“Falamos muitas vezes em dezenas de doentes que aguardam nos serviços de urgência para serem internados, por exemplo. Isto é muito frequente durante os períodos mais críticos, particularmente durante o inverno, e acontece porque muitos doentes estão à espera de uma destas camas que estão ocupadas com doentes que não deviam lá estar”, disse.

Xavier Barreto adiantou que os internamentos sociais também têm consequências para os doentes que estão internados inapropriadamente, como as infeções hospitalares.

“Destes 2.164 doentes, podemos estimar que provavelmente 10% deles (216) vão ter uma infeção hospitalar e muito provavelmente alguns deles já não saem do hospital (…). Isto é gravíssimo”, afirmou, sublinhando que são doentes que são internados por uma condição clínica que seria facilmente resolvida como uma fratura.

Adiantou que a média de dias de internamento apurada no inquérito é de 175 dias, mas há doentes que ficam um ano no hospital à espera de uma resposta de uma cama de retaguarda, seja num lar ou na RNCCI.

“Acho que nos deve alarmar a todos, além do impacto orçamental muito significativo”, frisou, considerando que esta situação deve levar a uma reflexão sobre onde o dinheiro é mais bem gasto, se nos internamentos inapropriados ou se num reforço de outro tipo de respostas para estes doentes.

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