Desde os primórdios que o ser humano sofre com hemorroidas.
As primeiras referências surgem em papiros egípcios, como o de Edwin Smith e o de Ebers, que descreviam tratamentos com pomadas à base de mel, mirra e ‘cerveja doce’. Séculos depois, Hipócrates, o ‘pai da medicina’, batizou a condição como haimorrois (sangue a escorrer) e estabeleceu um protocolo que ia desde dietas e unguentos minerais até ao último recurso: a cauterização com ferro em brasa.
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Contudo, a queda do Império Romano mergulhou a Europa num isolamento que tornou as rotas comerciais perigosas e inacessíveis. Sem os minerais e resinas do Oriente, as fórmulas sofisticadas tornaram-se escassas.
Paralelamente, a Igreja passou a priorizar a ‘medicina da alma’, encarando a doença como uma provação divina ou penitência que não deveria ser atenuada por confortos químicos. Neste cenário, a medicina física regrediu para o extremismo. Quem não encontrava a cura na oração, acabava nas mãos de “barbeiros-cirurgiões” que aplicavam metais incandescentes diretamente nos tecidos, numa tentativa desesperada de estancar o sangue e ‘queimar’ o mal — um procedimento de dor indescritível, realizado sem qualquer anestesia.
Foi neste contexto de terror médico e resignação espiritual que surgiu a célebre ‘descoberta’ de São Fiacre. Segundo a tradição, o monge, exausto e atormentado pela dor enquanto trabalhava no seu jardim, sentou-se sobre uma pedra aquecida pelo sol.
O alívio foi tão imediato e profundo que o episódio foi proclamado milagre. A pedra, que supostamente amoleceu para moldar o corpo do santo, tornou-se um símbolo de esperança. Até hoje, o ‘Assento de São Fiacre’ exibe marcas atribuídas ao monge e recebe peregrinos que preferem a fé ao rigor do diagnóstico médico.
A medicina percorreu um longo caminho desde a forja medieval. A cauterização brutal só começou a ser desafiada no século XVI, com a introdução das ligaduras de vasos por Ambroise Paré. No entanto, o verdadeiro ponto de viragem ocorreu no século XIX, quando a descoberta da anestesia e da antissepsia permitiu cirurgias precisas e humanas.
Hoje, embora a cauterização ainda exista sob a forma de laser ou bisturis elétricos, ela é feita com precisão milimétrica e sem dor, provando que, entre a pedra do milagre e o ferro quente, a ciência encontrou finalmente o equilíbrio para a cura.
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