Opinião

A montanha fui eu

OPINIÃO | Angel Machado | 2 horas atrás em 31-08-2025

Aos 89 anos, descubro em mim uma alegria triste e uma euforia pálida. Há quase nove décadas, os meus pais deram-me o nome de Alegria. Sempre alimentei a pretensão de envelhecer – sem saber de que forma, nem até onde –, até que alcancei esta idade voluptuosa e percebi que muito do que fui em jovem – no rosto, no corpo, na leveza – hoje cumpre-se na alma. É pena que, quando fecho os olhos, pensem que adormeço apenas por ser velha, sem suspeitarem que ainda sei sonhar.

Muitas vezes, sozinha no meu canto – na rua, num café ou na igreja –, agradeço a graça de ainda poder ser grata, de manter a lucidez que me lembra o quanto a velhice dói e incomoda. Eu sei: falo como uma velha. Mas o esforço de parecer uma nunca é reconhecido.

Dirão, talvez, que a velhice é outro tempo. Mas viver é sempre uma escolha. Os meus olhos continuam cintilantes, embora agora precisem de óculos, cansados de tanto ver. É assim que me percebem: cansada. Mal sabem os jovens que também eu fiz parte de revoluções, discretas ou ruidosas. A maior delas foi ter realizado alguns sonhos e esquecido outros, menos possíveis.

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E, contudo, ainda me restam sonhos por cumprir. Segredos, diria. Mas nesta idade, o pudor é luxo desnecessário. Há dias recebi uma carta – esse objeto quase extinto, que já ninguém escreve à mão. Veio de alguém cujo nome trago comigo com respeito e ternura.

O conteúdo, guardo-o para mim. Pouco interessará ao mundo. Basta dizer que se trata de uma aventura que ouso ainda viver. Não temam: é inofensiva para quem já chegou ao cume da montanha. A memória basta-me como prova da minha resiliência.

Recordo cada passo da subida, mais alto do que qualquer pássaro ousaria sonhar. Outras eram as minhas asas, e o limite nascia da euforia e da alegria que, contra todas as perdas, conservei. Mesmo quando a tristeza e a palidez me pesavam, continuei a subir.

Lembro-me também de uma aula inaugural de Filosofia. A oradora dizia que talvez fosse necessário falar do que não sabíamos. Achei encantadora a ideia do não saber e, mesmo assim, falar. Intuitivamente, cumpri gestos que desconhecia, e, por destino ou divindade, souberam bem à minha vida.

A montanha fui eu. O cume era a vida. O pássaro, a esperança. E a carta – o carteiro, o remetente, o destinatário. Agora, chegou o instante de descer a montanha, de encarar o impensável, o mistério e a solidão de um tempo em que as palavras rareiam, mas o silêncio ressoa ensurdecedor: a euforia última, talvez, de ser esquecida.

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