Opinião

A Briosa, o Cláudio Ramos, e uma agente de  execução entram num bar… 

OPINIÃO | Bernardo Neto Parra | 3 semanas atrás em 28-03-2024

Esta semana, como muitos, fui surpreendido pela notícia: “FILHA DO PRESIDENTE DA ACADÉMICA QUER GANHAR BIG BROTHER”. Desconhecendo, até então, a existência desta minha conterrânea, não resisti a uma curiosidade mórbida que me fez procurar mais informação sobre Catarina Ribeiro, filha do presidente da velha Briosa e ambiciosa concorrente da nova edição do mais famoso reality show da TVI. 

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Licenciada em Solicitadoria e Administração, Catarina, de 23 anos, apresentou-se como uma mulher decidida e leal e prometeu levantar a voz sempre que o julgue necessário. Natural da “cidade dos estudantes”, a jovem definiu-se como membro de “uma família que é toda do Direito”. A lei foi feita para nós”, confessou ela, antes de revelar que o seu pai (atual presidente da Académica) é jurista e o seu avô fora juiz desembargador do Tribunal da Comarca de Coimbra, com um misto de orgulho e gabarolice que até se pode compreender. Afinal, há poucos juízes desembargadores e, por isso, o raro privilégio de ser neta de um magistrado tão destacado pode ser motivo de legítima vaidade. 

Preocupou-me, porém, a clara tendência decrescente da família Ribeiro. Não quero ser pessimista, mas se o avô era juiz, se o pai é jurista e se a filha virou solicitadora, a lógica dita que as futuras gerações sejam responsáveis pela limpeza do tribunal — espaço que, como sabemos, é de difícil manutenção. Uma função igualmente digna e, porventura, até mais exigente do que a dos seus ascendentes. 

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Bem longe dos tribunais, em direto, na gala de estreia da TVI, Catarina teve ainda oportunidade de confessar alguns dos seus sonhos: “O meu sonho é ser agente de execução, penhorar dividas. Se alguém tem de fazê-lo, quero ser eu”. À primeira vista, pareceu-me uma declaração insólita. Todavia, à distância, reconheço que é promissora a ideia de que até as profissões mais duras, sensíveis ou violentas, encontrem gente vocacionada para as desempenhar, orgulhosamente. 

Não dormiremos todos melhor imaginando um mundo em que os coveiros sempre sonharam com a oportunidade de ganhar a vida a enterrar corpos? Um mundo em que os guardas do Palácio de Buckingham tenham sonhado,

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desde pequeninos, com uma profissão que lhes permita estar de pé, imóveis e calados, durante largas e largas horas? Ou mesmo um mundo em que o profissional texano que prepara as injeções letais aplicadas aos condenados à morte encontre manifesto prazer no seu emprego, que se deleite com a preparação de produtos químicos que, por via intravenosa, provocarão a morte de outro ser humano? Não será, afinal, uma boa notícia sabermos que há gente vocacionada até para os trabalhos que a mim parecem penosos castigos? 

A Catarina sonha com o dia em que possa entrar em casa das pessoas e levar lhes o sofá ou a cama, permitindo-lhes novas experiências e desafiantes aventuras… O que, de início me pareceu estúpido, parece-me agora enternecedor. 

A dado momento da transmissão, Cláudio Ramos, também ele mestre em trabalhos difíceis e penosos castigos, alertou um outro concorrente do Big Brother, um jovem árbitro de Viseu: “André, se se portar bem, o pai da Catarina ainda o contrata para trabalhar”. Provável desconhecedor da dinâmica e regras do universo desportivo, o apresentador do Big Brother sugeria, assim, que um clube de futebol contratasse um árbitro pelas suas qualidades profissionais. Ora, pensando bem, o Cláudio é capaz de ser um visionário: ao invés de procurar avançados que rematem bem ao ângulo e guarda-redes que defendam penáltis — tarefa que se tem revelado difícil — talvez fosse mais proveitoso a Académica investir num bom árbitro. Ficava seguramente mais barato do que comprar 11 bons jogadores e os resultados estavam garantidos. Pareceu-me estúpido, mas, pensando bem, é só inusitado. 

Mas, naquela Gala, Cláudio Ramos não foi o único a fazer sugestões inusitadas. O próprio André, o tal árbitro de 26 anos, que perceberá pouco da modalidade que ajuíza, fez questão de anunciar, enquanto piscava o olho: “Sou árbitro, mas também posso marcar golos.” – Como assim, André!? Se és árbitro, não podes marcar golos. Esta até o Cláudio sabe… 

Voltemos, ainda, à Catarina, a tal jovem que “cresceu num ambiente privilegiado e só durante o ERASMUS, em Espanha, é que aprendeu a desenrascar-se sozinha”. “Solteira, mas de coração fechado”, declarou que só se “imagina a viver em Lisboa ou no Porto”, porque Coimbra “é pequena demais para as suas ambições”. Ora, não me parece que Coimbra seja pequena demais para a Catarina. A Catarina cabe cá. São quase 320 km2 de município, área suficientemente extensa para albergar vários milhares de Alexandras Leitões ou até Manuéis Serrões… quanto mais uma pequena Catarina.

Já no que diz respeito às ambições da jovem de 23 anos, há que reconhecer que Coimbra pode ser curta, uma vez que não possui qualquer oferta no ramo dos reality shows. Nessa perspetiva, só a Venda do Pinheiro será apropriada aos objetivos da concorrente, cujo imaginário Coimbra foi incapaz de reter. 

Entretanto, suponho que o pai da Catarina esteja a preparar as próximas semanas de trabalho, período em que a Académica de Coimbra disputará a subida à II Liga. Oito jogos (ou oito “finais”, dependendo do nível de fanatismo de cada um) separam o clube do Calhabé da promoção à II Liga — feito que poderá eternizar o nome de Miguel Ribeiro no Hall of Fame da Briosa. 

Não vai ser fácil… Durante dois longos meses, o presidente da Académica terá de dividir a sua atenção entre os jogos da Liga 3 e as galas do Big Brother, numa ginástica mental bastante exigente que, com sorte, incluirá tantos pontapés à baliza quantos os chutos na gramática. Boa sorte, Dr. Miguel! Se tudo correr bem, muito em breve, estaremos todos a comemorar a subida à II Liga e a vitória no Big Brother — do que vi, competências não faltam. Nem à velha Briosa, nem à jovem Catarina.

OPINIÃO | BERNARDO NETO PARRA

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