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Universidade de Coimbra revela: Incendiários são diferentes e há quem queime por aborrecimento ou por vingança

Notícias de Coimbra com Lusa | 1 hora atrás em 13-01-2026

Um estudo académico concluiu que há diferenças entre quem ateia fogo em contexto rural e urbano, verificando melhorias, ainda que preliminares, ao ser adaptado, para formato individual, uma intervenção que existe noutros países.

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Os dados constam da tese de doutoramento de Rita Ribeiro, defendida, em 06 de janeiro, na Universidade de Coimbra, intitulada “Incendiários rurais e urbanos: Análise dos perfis criminais e eficácia preliminar do Programa de Intervenção para Indivíduos Detidos por Crime de Incêndio”.

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“Na literatura, eles são estudados de forma geral: são incendiários, ponto. O que se percebeu com este estudo é que existem diferenças entre os [incendiários] rurais e os urbanos”, vincou a autora à agência Lusa.

Os incendiários rurais são indivíduos mais velhos, estando muito prevalente o consumo de álcool e a doença mental, que é o que se distingue bastante dos incendiários urbanos, sublinhou a investigadora.

Os incendiários rurais e urbanos apresentam algumas características semelhantes, entre elas o facto de não ter cúmplices, de não se deslocar muito fora da sua zona de residência ou de trabalho, e ao confessar o crime, mas acabam por ter diferenças sobretudo na motivação.

“Viu-se uma maior tendência dos incendiários rurais atearem o fogo por um aborrecimento, não contra alguém”, disse Rita Ribeiro, sustentando que grande parte não conhecia o proprietário do terreno.

Já os incendiários urbanos, acrescentou, “têm uma maior prevalência de atear o fogo por vingança”, conhecerem o proprietário e terem uma relação mais íntima ou mesmo familiar.

De acordo com Rita Ribeiro, as tipologias mostraram que, mesmo dentro da área rural, os indivíduos são mais heterogéneos do que os incendiários urbanos, estando divididos em três grupos: um associado aos problemas de consumo de álcool, outro em que existe uma grande prevalência da doença mental e problemas psiquiátricos, e, por último, o grupo dos considerados socialmente adaptados, que não têm os problemas dos anteriores, ateando o fogo até por uma motivação mais instrumental.

“O fogo serve para outro propósito. Não é por raiva, nem vingança, nem aborrecimento, mas, por exemplo, para limpeza de terrenos”, explicou Rita Ribeiro.

Também as mulheres incendiárias, que são 10% da amostra, foram estudadas, podendo ser divididas nos três grupos, só que a motivação é menos diferente.

“A maioria acaba por atear fogo pela raiva, neste caso, por um pedido de socorro ou chamar a atenção”, afirmou a investigadora, referindo que não existe muita motivação instrumental.

“Enquanto na amostra maioritariamente masculina notou-se que 73% acabam por ter algum tipo de problemas de consumo de álcool e/ou doença mental, já as mulheres acabam por ter uma prevalência menor, 53%. Ainda assim, a doença mental prevalece mais e acabam por ter menos consumos de álcool no momento do crime do que os homens”, acrescentou.

No âmbito da tese, foi adaptada uma intervenção que já existe em outros países, como Inglaterra, em formato de grupo, mas que foi usado, de forma preliminar, com três indivíduos, observando-se melhorias.

Segundo Rita Ribeiro, notou-se uma diminuição da raiva no geral, assim como melhorias nas estratégias de como eles lidavam com as situações, competências sociais, principalmente a assertividade, e a empatia.

“Houve uma diminuição de alguns indivíduos do interesse inapropriado pelo fogo e também da normalização do fogo”, referiu.

Do trabalho, resultou uma ‘checklist’ que, segundo a investigadora, pode ser utilizada para auxiliar o sistema de justiça e a investigação criminal para ser mais fácil também a caracterização.

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