É um facto que as escolhas pessoais impactam as decisões em saúde. E a verdade é que há muitas pessoas que, influenciadas por notícias infundadas ou mitos que persistem, optam por não se vacinar, apesar da abundância de evidência científica, médica e até social que comprova os benefícios da vacinação e contraria essas ideias.
PUBLICIDADE
Mas é também uma realidade que não são apenas as escolhas individuais que determinam a adesão à vacinação. Vários estudos demonstram que as desigualdades na imunização são igualmente impulsionadas por barreiras estruturais, nomeadamente o acesso, ou a falta dele, à informação.
PUBLICIDADE
Porque não se pode escolher aquilo que não se conhece.
É o que acontece com a Zona, uma doença causada pela reativação do vírus varicela-zoster, que pode provocar dor intensa e persistente. Apesar de afetar uma em cada três pessoas ao longo da vida, muitos continuam a desconhecer não só a sua gravidade e elevada prevalência a partir dos 50 anos, mas também a existência de vacinação para a sua prevenção.
Este desconhecimento não é apenas um problema de escolha; é, acima de tudo, uma questão de acesso à informação. E, por isso, uma questão de equidade em saúde.
Muitas pessoas continuam a não saber que a Zona não é apenas “uma erupção cutânea”. Desconhecem que pode estar associada a complicações graves, como a nevralgia pós-herpética, uma dor neuropática que pode persistir durante meses ou anos após a resolução das lesões, perda de visão ou défices motores, com impacto significativo na qualidade de vida. Complicações que afetam de forma desproporcionada as pessoas mais velhas e as imunocomprometidas, precisamente aquelas para quem a prevenção é mais necessária.
Um inquérito realizado no último ano junto de pessoas com mais de 50 anos em nove países, incluindo Portugal, confirma que este desconhecimento é generalizado. Mais de metade dos inquiridos revelou baixo nível de conhecimento sobre a doença. Em Portugal, mais de seis em cada dez adultos saudáveis referiram não ter informação suficiente sobre a Zona – um valor que se mantém semelhante entre pessoas com comorbilidades (60%), apesar do seu risco acrescido.
São os que mais têm a perder e os que menos sabem que têm algo a prevenir.
Os dados sobre o impacto real da doença tornam esta lacuna ainda mais evidente. Um estudo nacional revelou que, entre julho de 2023 e junho de 2024, 62.985 adultos foram diagnosticados com Zona e recorreram ao sistema de saúde. São quase 63 mil pessoas, num único ano, confrontadas não apenas com a dor aguda, mas também com o impacto das consultas, dos tratamentos e, em muitos casos, das sequelas prolongadas.
Perante estes números, a literacia em saúde deixa de ser apenas desejável – torna-se um direito. As pessoas têm o direito de conhecer os riscos que enfrentam. E têm também o direito de perguntar.
A relação médico-doente, outrora marcadamente unilateral, evoluiu e deve continuar a evoluir. O doente informado não é um obstáculo; é um parceiro ativo no cuidado.
Questionar o médico de família sobre a Zona, as suas complicações e a vacinação disponível é um ato legítimo de cidadania em saúde com potencial impacto real na vida das pessoas.
Mas, para que isso aconteça, a literacia não pode começar na consulta. Tem de começar antes. Em casa. Nas conversas do dia a dia. Nos espaços onde as pessoas vivem antes de se tornarem doentes.
O Dia Mundial da Saúde, assinalado a 7 de abril, é uma oportunidade para refletir mas, sobretudo, para agir. Através da partilha de uma mensagem simples e essencial: informar é prevenir, e prevenir é, antes de tudo, um direito.
OPINIÃO | Sónia Gonçalves, Especialista em Medicina Interna e Diretora Clínica da Obesity Clinic
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE