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LUÍSA SONZA EM “BRUTAL PARAÍSO”

Notícias de Coimbra | 2 horas atrás em 08-04-2026

 Os primeiros segundos do disco anunciam uma falsa memória de paraíso. O som do mar entra como promessa — um litoral idealizado, quase imóvel no cartão postal — até que, de repente, algo falha. A estação de rádio muda, o ruído invade, a batida endurece. O que parecia repouso revela tensão. Surge uma risada que soa deslocada, como vinda de um outro ambiente — ou simplesmente um deboche. A travessia está feita. Do cenário idílico, resta só um eco. É nesse corte que “Brutal Paraíso”, quinto álbum de estúdio de Luísa Sonza, se instala.

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A abertura com a vinheta “Distrópico” já aponta a espinha dorsal do disco, um trabalho de fricção entre camadas sonoras e simbólicas que, colocadas em contato, produzem sentido pelo choque. O mar — recorrente ao longo do álbum, reaparecendo em ruídos de ondas ou gaivotas — nunca é apenas natureza. É sempre memória de uma utopia, algo que já foi imaginado como lugar de plenitude e que agora retorna atravessado por interferências, por uma espécie de instabilidade desiludida.

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O álbum nasce desse contraste exposto já em seu título, “Brutal Paraíso”. De um lado, a ideia de Brasil que atravessa a história da canção — solar, construída sobre uma “promessa de felicidade”. De outro, a experiência concreta de uma jovem artista que cresceu num país fragmentado, urbano, atravessado por tensões que não cabem nesse imaginário. “Brutal Paraíso é o oposto do ‘Bossa Sempre Nova’”, diz Luísa Sonza, referindo-se a seu disco anterior, no qual relia clássicos do gênero ao lado de Roberto Menescal e Toquinho. “‘Bossa Sempre Nova’ é como um espelho retrovisor, mostrando o que se via lá atrás, como na capa que fiz pro disco, aquele apartamento onde tudo era perfeito, seguro, utópico. Já ‘Brutal Paraíso’ é o que eu vejo hoje, como eu como uma jovem brasileira vejo o mundo, de maneira crua”.

Ao separar o “Bossa Sempre Nova” de “Brutal Paraíso”, Luísa não estabelece apenas dois momentos distintos de carreira, mas duas formas de olhar o mundo. “É muito linda a utopia, a expectativa do paraíso, a vontade de viver esse paraíso, mas é um paraíso que não existe”, crava a cantora. “Esse Jardim do Éden está distante da nossa realidade”.

Essa consciência é o eixo do novo disco. Não se trata de negar a tradição, mas de deslocá-la. A bossa nova — eixo simbólico do “Paraíso” de “Bossa Sempre Nova” — aparece como referência constante, mas nunca como lugar de repouso. Em “Fruto do Tempo”, a bateria tocada no aro carrega um eco direto da linguagem bossanovista, mas o que ela sustenta é uma letra de desilusão completa, em que o tempo não redime, apenas acumula experiências.

O disco anterior era uma visita, um mergulho respeitoso numa tradição. Já “Brutal Paraíso” recorre à bossa nova como contraponto. Logo na abertura, “Fruto do Tempo” retoma “Consolação”, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, não como reverência, mas como resposta. A pergunta que atravessava a canção original (“Se não tivesse o amor?”) reaparece agora invertida. Não há mais hipótese, há constatação (“Já não existe amor”). Mas é necessário que se viva. “As coisas não estão mais bonitas como eram, mas ainda existem”, resume Luísa.

A ideia contida nessa fala da cantora sustenta o disco inteiro. Não há em “Brutal Paraíso” a idealização do amor como força redentora, mas sim a insistência em se sobreviver a ele. “Que o amor morra pra eu viver” — verso-chave do álbum, presente na faixa “Que o Amor Morra” — condensa essa inversão e aponta para uma ética que se constrói ao longo do disco: a necessidade de interromper a idealização para preservar a própria existência.

Na materialização do projeto, Luísa reúne um núcleo recorrente de colaboradores e uma rede internacional de nomes ligados ao pop contemporâneo. Entre eles, aparecem Mikey Hermosa (Lana Del Rey), os britânicos Litek e WhyJay (Central Cee), além de Tommy Brown (Ariana Grande) e Yoni (Bad Bunny). A esses nomes se soma um grupo mais próximo da artista, responsável por sustentar a espinha do disco — que traz letras em inglês, português e espanhol — ao longo de sua gestação.

O caminho do disco acompanha o deslocamento da idealização para o ceticismo. As primeiras faixas mergulham num desencanto que não se resolve, apenas se instala. “Amor, Que Pena!” chega a retomar a batida da bossa nova, mas desloca seu centro — piano

refinado e beatbox convivem com graves pop, enquanto a letra reconhece a falência de uma expectativa. “E Agora?” — com participação de Xamã e citação a “Você não me ensinou a te esquecer”, de Fernando Mendes — prolonga esse estado, abrindo com violão bossanovista e deslizando para a eletrônica, como se a própria forma da canção encenasse a passagem entre esses dois mundos.

Esse jogo de referências atravessa todo o disco. “Loira Gelada” reinterpreta a canção do RPM a partir da perspectiva da personagem — não mais o olhar masculino sobre as “louras geladas”, mas a voz da própria figura, que se apresenta como vício, tentação. A faixa se constrói em atmosfera electropop, ecoando a original, antes de se dissolver novamente em bossa nova — um retorno que não é reconciliação, mas tensão.

Em “Santa Maculada” — que reproduz versos de “Pena verde”, sucesso de 1970 na voz de Abílio Manoel — a figura feminina assume contornos ainda mais complexos. A personagem, que remete a arquétipos, carrega a marca de uma origem já atravessada por culpa. A energia rock da faixa reforça esse estado de conflito, no qual não há pureza possível, apenas a negociação entre forças que se opõem.

Esse movimento se desdobra em “Diferentemente”, onde a personagem reconhece padrões autodestrutivos (“Sempre quero o que não me faz bem”) enquanto a base musical retorna à bossa nova, como se a tradição reaparecesse como sombra. “Sempre Você” parece apontar para uma tranquilidade possível — o desejo de um amor mais calmo — mas essa estabilidade é sempre provisória.

A partir de “Tropical Paradise”, o álbum entra numa zona de maior intensidade. O violão latino e a atmosfera sensual se alternam com o funk — em seu eletrobatuque que ecoa bailes e terreiros. A incendiária “Safada”, com participação de Young Miko, aprofunda esse território, assumindo uma energia sexual direta e deliciosamente pop. Em “Sonhei Contigo”, com a presença de MC Morena e Meno K, a passagem se dá de forma mais marcada já nos instantes iniciais. A faixa parte de uma atmosfera eletrônica soturna, com versos em inglês, até ser tomada pelo batidão, quando entram os versos em português.

Importante destacar que “Safada” e “Tu Gata” — esta com participação de Sebastian Yatra — têm presença entre os autores do compositor Vibarco, premiado na categoria Melhor Canção Alternativa com “Tetas”, de CA7RIEL & Paco Amoroso. Seus versos em espanhol, marcados por uma abordagem direta do desejo, contribuem para tensionar ainda mais os limites entre o repertório pop global e a tradição brasileira que o disco fricciona o tempo todo.

Também cruzando funk e versos em espanhol, “No Es Lo Mío” parte do romantismo para aumentar a temperatura, com versos como “Borrachita tomando cachaça” e “Me lambuza toda/ Tô com sede de saliva/ Chama de cachorra”.

O funk é presença marcante em diversas canções, como uma força de atração — em muitas faixas, a certa altura o arranjo parece ser “puxado” para a gravidade do batidão. “O funk é o máximo da catarse corporal”, explica Luísa. “Quando eu começo a mexer com a minha sensualidade, isso se traduz musicalmente em funk”.

É o que acontece em “French Kiss”, com o reforço de MC Paiva ZS. Nela, o arranjo se encaminha gradualmente para o funk, como se a sedução presente ali exigisse que fosse assim. Em “Telefone”, a agressividade e a saudade do término se expressam diretamente no gênero, incorporando inclusive um sample de “Desbloqueia a tela”, de DJ Kokadah e Mc Denny.

Ao mesmo tempo, o disco mantém um diálogo constante com a tradição da canção brasileira. “Eu sou fruto também disso”, diz Luísa, que tem afirmado em seus trabalhos o desejo de mergulhar na pesquisa do vasto e valiosíssimo baú da MPB. “Eu tenho que lembrar quem veio antes de mim, até pra saber pra onde eu vou”.

As referências aparecem muitas vezes em citações diretas, como em “Brigas nunca mais”, evocada em “Doce Mentira”. Em “A Vida Como Ela É”, há o diálogo com o universo de Nelson Rodrigues exposto já no título e também com “Andar Com Fé”, de Gilberto Gil, mirando numa poética realista, na qual a vida só ganha sentido quando vivida, não quando projetada.

A concretude é também um eixo visual e simbólico do álbum. O “paraíso” não desaparece, mas se revela atravessado por essa materialidade. A ideia de um “paraíso brutal” surge também a partir da experiência com produtores estrangeiros, que chegavam ao Brasil em busca de um imaginário específico. A cantora lembra que, ao se depararem com o cimento de São Paulo, eles perguntavam: “Cadê a praia, cadê a floresta, cadê o paraíso?”. A resposta — “não tem” — ajudou a definir o conceito do disco. “O paraíso não deixa de existir, mas a gente se dá conta que ele é brutal”, diz Luísa.

Essa tensão se reflete também na estrutura do álbum, que se desenha como um fluxo. “Eu sinto que é meio que um loop que a vida propõe o tempo todo”, diz a artista. “Você vai, se preenche dos vícios, do barulho, da intensidade… Depois vem a ressaca e você dá uma levantadinha pra começar de novo, mas agora sabendo um pouco mais”.

Nos momentos finais, portanto, o disco desacelera e se dirige a uma compreensão mais serena da brutalidade e do paraíso. “O Som da Despedida” e “Depois do Fim” — ambas com participação do coletivo de produtores The Olders — trabalham com a ideia do encerramento como passagem para um novo início. Já “Quando” propõe uma visão madura dos relacionamentos como processo que inclui rupturas e reconstruções.

“Me inspirei um pouco em ‘Depois’, da Marisa Monte”, revela Luísa. “Foi uma das primeiras músicas que eu aprendi no violão, na minha adolescência. Me marcou muito porque eu achava tão impensável a forma como ela falava de amor, de traição. Não entendia aquela tranquilidade. Mas ficando mais maduros vamos entendendo que os relacionamentos vão passar por dificuldades, por desilusões. Eu gosto muito da palavra ‘quando’, porque não é um ‘será’ ou ‘talvez’ ou ‘se’, é algo que vai acontecer. Então, quando essas coisas acontecerem, o que vai acontecer em qualquer relacionamento duradouro, que a gente tente reconstruir de novo e de novo e quantas vezes for preciso. Um amigo acha essa canção muito triste, mas pra mim é o contrário. É a mais esperançosa”.

Esse movimento de maturidade conduz à faixa final. “Brutal Paraíso”, a canção-título, é construída como uma carta — originalmente escrita para a sobrinha da artista, Helena, que

estava prestes a nascer. “Eu queria muito escrever uma carta pra dizer a ela pra não ficar com tanto medo como eu senti em diversos momentos”, conta Luísa. “Pra falar dos momentos em que eu achava que era o fim do mundo e na verdade não era nada. Ou quando eu pensava que sabia tudo e de repente nada mais fazia sentido, eu não fazia sentido. Então foi uma carta contando de uma maneira branda da vida, tentando ser real, mas sem peso, num lugar de acolhimento”.

Em retrospectiva, portanto, a carta lança sentidos sobre o disco — a trajetória da desilusão ao acolhimento. Ou seja, não se trata de negar a experiência anterior, mas de incorporá-la. O último verso sintetiza esse movimento: “Hoje é por mim que eu canto”.

O verso, porém, não resolve o conflito. Ele o assume. Depois de atravessar desilusões, excessos e quedas, o disco chega a um lugar, se não de paz plena, de alguma consciência. Entre o mar imaginado e o concreto urbano, entre a herança da canção brasileira e a linguagem pop contemporânea, Luísa ergue seu “Brutal Paraíso”. Um cenário tomado pela beleza de flores coloridas e pela hostilidade de plantas espinhosas, todas respostas possíveis à pergunta fundamental de Vinicius e Baden: “Se não tivesse o amor?”.

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