Coimbra
Agentes culturais de Coimbra sentenciam que “falta identidade programática no Convento São Francisco”
Agentes culturais de Coimbra afirmam que, dez anos depois da sua inauguração, o Convento São Francisco continua sem ver esclarecidas a sua missão e identidade programáticas, lamentando o potencial que ainda está por concretizar.
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“Quando se pensa numa obra desta dimensão [que custou cerca de 42 milhões de euros], só se pensa na obra e não nos conteúdos”, disse à agência Lusa a diretora do festival Linha de Fuga, Catarina Saraiva.
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Sobre o porquê dessa falha ao fim de uma década, Catarina Saraiva nota que “falta uma missão para aquele espaço” e um plano estratégico “que permita entender o que é ter este espaço na cidade”.
Apesar disso, a diretora do Linha de Fuga realça que o Convento São Francisco (CSF) está muito bem equipado, com “uma equipa incrível e muito disponível para acompanhar processos artísticos”.
“Para as pessoas que tiveram que assumir [a programação], a ausência de uma estratégia de longo prazo dificulta o pensamento, além de estar sempre muito dependente da Câmara”, notou.
Tal como Catarina Saraiva, vários dos agentes culturais contactados pela Lusa lamentam as mais recentes notícias sobre o CSF, como a anulação do concurso público para programador e o corte de mais de dois terços no orçamento da programação.
O diretor do Jazz ao Centro Clube (JACC), José Miguel Pereira, faz referência à anulação do concurso público para o programador do CSF para salientar que “falta uma direção artística” naquele espaço.
“A necessidade de uma direção artística selecionada por um concurso era tida como consensual. O aniversário é um motivo de celebração, mas essa celebração acaba por ficar toldada por esse acontecimento”, constatou.
Para José Miguel Pereira, a anulação “causa perplexidade”, esperando que o próximo Conselho Municipal da Cultura esclareça as motivações que levaram a essa decisão.
Contactada pela Lusa, a diretora artística do Teatrão, Isabel Craveiro, disse que ao olhar para os dez anos do Convento São Francisco vê “uma magnífica oportunidade ainda não totalmente concretizada”.
No seu entender, a existência deste equipamento abre um conjunto de possibilidades, em termos de programação, de residência e de participação em diferentes áreas, desde as artes performativas, às artes visuais e à música.
“É um equipamento, se calhar único no país, com uma multiplicidade e uma diversidade de espaços, que permite muitas coisas. Mas, a sensação que tenho é que a sua missão não está absolutamente clara na relação com a cidade”, indicou.
Se por um lado o diretor da companhia Marionet, Mário Montenegro, elogia as condições daquele equipamento, por outro, lamenta a instabilidade na programação do espaço.
Para o encenador, é preciso uma definição da missão daquele espaço, que deveria ser enquadrada “numa política cultural para o concelho”, em que há “navegação à vista, sem estratégia a médio prazo”.
Já o diretor do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), Carlos Antunes, entende que o Convento ocupou “um lugar completamente vazio na cidade”, mas cuja gestão é desafiante por ter de responder a diferentes públicos.
O CSF, defende, precisa de ter “uma programação mais coerente, mais centrada num pensamento curatorial”, acreditando que, no futuro, deve haver um “reforço identitário mais pleno” de um espaço que acredita “deveria ser uma locomotiva” na identidade cultural do concelho.
João Silva, da produtora Blue House, que tem programado no CSF um ciclo de concertos curtos que já dura há cinco anos, destaca as condições técnicas do Convento e a passagem de espetáculos por Coimbra que, de outra forma, nunca passariam.
Apesar disso, entende que “ainda não se conseguiu um casamento entre a cidade e o Convento São Francisco”, apontando para falta de clareza na sua missão.
“A tentativa de ser um espaço de referência na cidade e na região ainda não foi conquistada. É uma frase meio feita que Coimbra como cidade também partilha, que é o potencial é maior do que onde estamos hoje em dia”, notou João Silva.
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