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“Matar o galo”, a velha e um Judas: Uma Páscoa que só há em Penela

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 3 horas atrás em 01-04-2026

O concelho de Penela preserva um vasto conjunto de tradições associadas à Páscoa e ao período da Quaresma, onde se cruzam manifestações religiosas, práticas comunitárias e costumes transmitidos entre gerações.

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Realizada durante a Quaresma, a Via-Sacra constitui uma das celebrações religiosas mais emblemáticas deste período litúrgico, cuja origem remonta à época das Cruzadas. Trata-se de uma representação devocional que recorda o percurso de Jesus Cristo desde a condenação até à crucificação. Ao longo de catorze estações simbólicas, os fiéis acompanham, através de oração e reflexão, o caminho entre o Pretório de Pôncio Pilatos e o Monte do Calvário, evocando os momentos centrais da Paixão de Cristo.

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O Domingo de Ramos assinala o início da Semana Santa, sendo celebrado no domingo anterior à Páscoa. A data recorda a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, recebido pela população com ramos de oliveira e palmeira, gesto que simbolizava reconhecimento e esperança.

Em Penela mantém-se o costume de levar à igreja ramos compostos por oliveira, alecrim, flores e outras plantas aromáticas para serem benzidos durante a Eucaristia. Tradicionalmente, mulheres e raparigas transportam os ramos, enquanto os rapazes levam cruzes decoradas com elementos semelhantes. Após a bênção, estes símbolos são guardados em casa como sinal de proteção e bênção familiar. Também é habitual ornamentar cruzeiros e locais de passagem das procissões com tecidos roxos e elementos vegetais, cores associadas ao tempo quaresmal, dá conta a Turismo Centro de Portugal.

Durante a Visita Pascal, tradição vivida em todo o concelho, as famílias decoram as entradas das habitações com tapetes de flores, demonstrando o desejo de receber o sacerdote e a comitiva paroquial. No interior das casas, a família reúne-se em torno de uma mesa preparada com alimentos e bebidas que são benzidos e posteriormente partilhados num momento de convívio comunitário.

Celebrada na localidade de São Sebastião, no domingo de Pascoela, esta festa conjuga momentos religiosos e festivos. A celebração inclui missa solene seguida de procissão, animação com ranchos folclóricos e venda das tradicionais fogaças.

Antigamente realizavam-se diversos jogos populares, entre os quais o chamado “matar do galo”, prática hoje transformada por razões éticas: o animal foi substituído por uma lâmpada, mantendo-se o galo apenas como prémio simbólico. O baile continua a ser um dos pontos altos da festividade, passando das antigas atuações ao ar livre com acordeões para espetáculos animados por grupos musicais contemporâneos.

A côngrua corresponde à contribuição voluntária dos fiéis destinada ao sustento da paróquia e do pároco, tradicionalmente equivalente ao valor de um dia de trabalho anual, semelhante ao antigo dízimo. Atualmente, a recolha desta oferta realiza-se através da distribuição de envelopes durante a Quaresma, permitindo que cada fiel contribua de forma anónima e voluntária.

Na vila do Espinhal, a Serração da Velha decorre na terceira quarta-feira da Quaresma e constitui uma tradição simultaneamente simbólica, satírica e comunitária. Antigamente percorria-se a localidade de porta em porta, com participantes mascarados e acompanhados por instrumentos ruidosos, denunciando de forma humorística defeitos e comportamentos sociais.

Hoje, a tradição ganhou novos contornos culturais através de grupos de teatro amador que apresentam sátiras sociais inspiradas na atualidade. As críticas deixam de ser dirigidas a pessoas concretas, assumindo um carácter generalizado e reflexivo. A componente musical é assegurada pela Sociedade Filarmónica do Espinhal e pelo Coro Carlota Taylor, mantendo vivo o espírito crítico sem intenção ofensiva.

A Queima do Judas realiza-se no domingo de Páscoa no Espinhal e no sábado de Aleluia em Penela. Embora popularmente associada à figura bíblica de Judas Iscariotes, esta tradição possui raízes mais antigas, ligadas a rituais pagãos de renovação e fertilidade próprios da primavera.

Com a cristianização destas práticas, o simbolismo do renascimento da natureza passou a associar-se à Ressurreição de Cristo. A destruição do boneco representa simbolicamente o fim do inverno e a purificação do mal, apesar de não existir referência bíblica ao castigo através do fogo.

A Páscoa mantém igualmente viva a relação entre padrinhos e afilhados. No Domingo de Páscoa, os afilhados visitam os padrinhos oferecendo flores, recebendo em troca amêndoas ou o tradicional folar.

O folar, originalmente um pão ou bolo preparado com ovos e leite, assume atualmente um significado mais amplo, podendo traduzir-se em diversos tipos de presente. No passado, era frequente as madrinhas oferecerem peças para o enxoval das afilhadas, preparado desde cedo e guardado em baús familiares.

A tradição reflete o papel social dos padrinhos na cultura católica, enquanto figuras responsáveis pelo acompanhamento moral e espiritual dos afilhados, sendo comum escolher pessoas de prestígio ou influência comunitária. Daí nasceu o conhecido provérbio popular: “Quem tem padrinho não morre pagão”.

Outras festividades Pascais no concelho: Festa de Santa Luzia — Chanca (Segunda-feira de Páscoa), Festa de São Sebastião — São Sebastião (Domingo de Pascoela), Festa de Nossa Senhora do Socorro — Bouçã (Domingo de Pascoela) e Festa de Nossa Senhora do Pranto — Viavai (3.º Domingo da Páscoa).

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